Quando a moça se assentou, disse Ladislau:
—Aquelle banco era o logar de minha tia, que Deus tem!
E ficou contemplativo.
—E eu—disse padre João—estou no logar de seu tio, e o sr. Ladislau vem sentar-se no logar que era seu.
Estava já na meza a travessa de barro vidrado com a fritada de ovos e farinha triga. O vigario sorriu-se, e disse:
—Na meza de seu tio havia um prato e um talher para cada pessoa?
Ladislau, que não sabia o significado da palavra «talher», respondeu:
—Comiamos todos do mesmo prato; e na minha casa de Villa Cova, tanto meu pae como meus tios comiamos á mesma meza dos creados e jornaleiros.
—Como ha trezentos annos—ajuntou o padre—como os patriarchas idumeos com os seus servos e escravos. O sr. Ladislau ainda não viu, á luz da civilisação, a grande distancia a que está dos seus criados. Vive, por em quanto, na fé de que senhor e servo são homens filhos do mesmo pai, um favorecido, outro desfavorecido pelo acaso do nascimento... O sr. não lê as gazetas?—perguntou o vigario abruptamente.
—Não leio, nem as vi nunca—respondeu o moço—Ouvi dizer a meu tio que um padre, d’aqui tres leguas, quando acertava de encontrar-se com elle na feira de Pinhel, lhe mostrava gazetas.