O advogado de Casimiro, limpando as camarinhas do suor, leu com voz tremente de alegria e commoção d’alma:

«Declaro eu Guilherme de Noronha e Lira, estudante do 5.º anno de direito, que fui eu quem matou, na noute de 16 de janeiro do corrente anno de 1840, um creado de D. Alexandre de Aguilar, e empreguei os meios de matar tambem o amo. Não tinha contra algum d’elles motivo de odio pessoal; mas, como inimigo jurado de poltrões covardes, e sabendo eu que elles espreitavam ensejo de matar Casimiro de Bettancourt, mancebo tão honrado como valente, protestei livral-o de tão miseraveis inimigos, atacando-os sósinho e sem mais arma que um páu de choupa, no momento em que elles tinham arrombado a porta de Casimiro para o irem matar entre sua mulher e sua filhinha d’um anno. Declaro mais que fui eu quem afugentou a companhia, postada ás portas de Casimiro na intenção de o arrancar ás garras da justiça; mas o meu amigo não quiz fugir, assegurando-me que se havia de salvar sem pôr em risco a minha segurança. E por tanto, resolvido a acabar com a vida, poucas horas antes de me deixar matar, faço esta declaração, e peço a Casimiro Bettancourt perdão de o ter infelicitado, quando cuidava que o beneficiava com o meu zêlo guardador da sua preciosa vida. Peço tambem perdão da inexplicavel fraqueza que me tolheu de eu ter feito esta declaração desde o momento que o meu amigo entrou no carcere. Eu sei que elle me perdoou; mas volto as minhas supplicas para a esposa attribulada, que tantas vezes, com um sorriso de amiga, devia execrar o causador das suas calamidades! Faço esta declaração debaixo dos olhos de Deus, e juro pela virtude de minha mãi que é verdade o que digo, e será infame quem me não acreditar. Coimbra 19 de março de 1840. Guilherme de Noronha e Lira».

D. Christina perdêra o alento nos braços de Peregrina. Muitos academicos romperam de salto a teia, e vieram parar no meio da sala. O advogado do réu, esquecido das praxes, foi abraçar o cliente, que parecia dar levemente conta da agitação do auditorio, e applicava o ouvido aos soluços da esposa. Os jurados limpavam as lagrimas, excepto um que tinha recebido uns vinte mil réis de D. Alexandre. O fidalgo-autor acachapara-se de modo, que parecia querer sumir-se debaixo da meza. O seu advogado lia a declaração, e carecia de coragem para impugnar-lhe a validade. O juiz dizia ao delegado:

—Deviamos esperar isto, ou cousa semelhante. Este homem, sem provar nada, tinha provado a sua innocencia.

E o delegado confirmava:

—Eu espero a minha vez de abraçal-o!

O cidadão honesto da Couraça dos Apostolos ia a sahir, quando Casimiro, que parecia absorto, disse:

—Sr. juiz, peço a v. ex.ª a graça de ordenar áquella testemunha, que se demore um instante.

—Quer querellar!—bradou o patrono.