—De manhã tem a bondade de me guiar a casa d’elle?

—Pois não, senhora condessa?

O capellão, cujo quarto era sob o pavimento dos aposentos da condessa, apesar de contuso e moido dos solavancos da carruagem pelas barrocas da estrada real de 1840, não poude adormecer, ouvindo até á madrugada os passos da illustre dama, e o abrir e fechar de portas d’uma janella. Certo fôra que a condessa nem sequer encostára a face ás almofadas do leito, e, de quarto em quarto de hora, ia impaciente abrir a janella e ver se rompia a alva.

Assim que aclarou o céu, já a senhora despertou a creada para lhe dar do bahú outros vestidos e ornatos.

Ao nascer do sol, estava s. ex.ª vestida a rigor de viuva opulenta: modestia elegante, pompa meio velada pela côr escura do estofo.

O egresso, que perdera a esperança de adormecer, levantou-se, e foi á antecamara receber as ordens da condessa. Sahiu ella a dizer-lhe que tomaria uma chavena de café, e ás nove horas sahiria acompanhada de sua reverendissima.

Sua reverendissima, vendo-a assim adereçada, consentiu que o demonio da maledicencia lhe encavalgasse o espirito: «Dar-se-ha caso, dizia elle comsigo, que a condessa esteja namorada d’esse Bettancourt? Querem ver que esta senhora, aos quarenta e seis annos, tresvaliou, e vai destruir o bom nome que está gosando?? Mas não!—monologou elle, tornando sobre si—Vai-te espirito aleivoso que me tentas! Aqui anda segredo que eu vou saber logo! Esta senhora é o typo da honestidade, e o modelo das viuvas honradas.

Ás nove horas sahiu a condessa, com o seu capellão e o estalajadeiro.