—É uma historia interessante, que parece novella, a tal do academico, senhora condessa. Em resumo, conta o estalajadeiro que, estando para ser julgado o reu, e forçosamente condemnado, appareceu a declaração d’outro academico, que mataram antes de hontem, confessando-se o matador. Em consequencia do quê, o tal Bettancourt foi posto em liberdade.
—Graças, graças, meu Deus!—exclamou a condessa ajoelhando.
O padre empedreniu-se, e encarou na creada tambem estupefacta: nenhum ousava tugir um monossyllabo.
Ergueu-se a condessa, e enviou de novo o capellão a pedir ao dono do hotel a bondade de fallar com ella por alguns minutos.
O estalajadeiro vestiu a casaca, esperou na sala a senhora condessa.
Interrogou-o ella ácerca de todas as miudezas concernentes á soltura de Bettancourt. O informador relatou-as todas, desde as severas lições que o academico dera a D. Alexandre, até ao lindo discurso, dizia elle, que o amigo de Guilherme Lira improvisára á beira da sepultura: e n’uma especie de apostilla á narrativa contou a esquecida circumstancia de ter irrompido inesperadamente pelo tribunal dentro o fidalgo, sogro do estudante.
—Pois elle está em Coimbra?!—interrompeu vivamente a condessa.
—Vi-o eu, minha senhora! É um velho bonito! basta vêl-o para se dizer: «aquelle é um fidalgo dos antigos tempos!»
—Sabe onde mora Casimiro Bettancourt?
—Sei, minha senhora.