Esta sequidão irritou D. Sueiro, que se desentranhou em apostrophes contra a canalha de Pinhel. A tia de sua mulher foi exposta á irrisão dos seus hospedes, na presença da sobrinha. Repetiram-se os vilipendiosos amores que deram o filho natural, sobrinho do carpinteiro. Desde este facto, D. Guiomar odiou o marido, cuja hediondez de caracter só podia ser avantajada por D. Alexandre.
Tratou a condessa de casar suas sobrinhas, com auxilio dos seus haveres. Accorreram pretendentes das duas provincias contiguas, e casaram todas com morgados, homens de bem, vaidosos de seus appellidos, mas inoffensivos, e virtuosos mesmo por vaidade de imitarem seus avoengos. As senhoras dispersas por aquelles palacetes solarengos reuniam-se em casa de seu pai, nas festas do anno, nos natalicios, e no anniversario do casamento de Casimiro. Esta clausula fôra instituida pela condessa.
A tiro de peça de Pinhel, existiam uns casebres derrocados, onde nascera, segundo informações de mestre Antonio, seu cunhado Duarte Bettancourt, filho de um soldado da ilha de S. Miguel, que ficára na metropole, e alli estabelecera uma tenda. Comprou a condessa estes pardieiros aos possuidores, e mandou-os arrazar, e sobre elles edificar um obelisco cintado por grossa cantaria, com portas de ferro. Ia todos os dias ver a obra, que durou um anno, com os melhores alveneis da provincia. Concluido o obelisco, foi entalhada na base uma lamina de ferro com esta legenda:
Á MEMORIA
DE
DUARTE BETTANCOURT
MORTO NO SEU POSTO DE HONRA
EM 1834
MANDOU ERIGIR SEU FILHO
CASIMIRO BETTANCOURT
EM 1843
Ruy de Nellas, lá muito no seu interior, não gostou da lembrança. Era a natureza a puchar por elle.
N’este tempo, teve a condessa uma hora de muitas lagrimas.
Casimiro, de proposito e por veneração, nunca lhe mostrára duas cartas, que conservava entre os papeis de seu pai, assignadas pela inicial E.
N’uma tarde, como estivessem sentados na base da columna, Casimiro tirou da carteira dous papeis dobrados e amarellecidos.
—Que é isso, filho?