—Não, senhor. O sacerdote de Christo faz, n’estes casos, o que faria qualquer homem de boas entranhas. Irei pedir ao sr. Ruy de Nellas consentimento para salvar sua filha da continuação do crime e da infamia.

—Meu pai é inexoravel!—acudiu Christina.

—Não pode ser—disse Ladislau.—Um homem, que amparou e educou dous filhos desvalidos d’um seu cazeiro, não póde ser impiedoso com sua filha. Minha senhora, peço licença para interpor o meu parecer n’uma questão em que minha mulher não é estranha, e eu tambem não posso sêl-o. Ella não veio; mas encarregou-me de vir aqui offerecer-lhe nossa casa; e, tão certa está de que v. ex.ª nos honra em aceital-a, que já vim preparado para a conducção de v. ex.ª.

—Pois heide eu ir!...—exclamou Christina, encarando anciada em Casimiro.

—O sr. Casimiro fica sendo meu hospede—respondeu o vigario.

—Separados!—bradou ella rompendo contra todos os estorvos do pudor, e abraçando-se em Casimiro.

—Não!—clamou elle.—Christina, sacode os teus sapatos fóra d’esta porta, e vamos ao nosso destino.

—O aggravo não me fere, que o não mereço, senhor!—disse placidamente o vigario.—Eu convido o sr. Casimiro a ser meu hospede, em quanto se solicita a licença do pai d’esta senhora. Se lhes é dolorosa esta separação temporaria, Deus permittirá que os retornos de contentamento a façam esquecer. Soffram alguns dias para merecerem o premio. Eu não posso implorar o perdão para a desobediencia, allegando que os fugitivos permanecem em criminosa união. Ha o recurso da mentira; mas eu não sei mentir. Despeçam-se para um dia, que breve virá, se Deus nos ouvir. O sr. Casimiro, que me applicou as palavras de Jesus aos apostolos, mostra que lê e sabe os livros da religião. Seja, pois, religioso: peça comnosco ao Senhor que lhe despache em bem o seu requerimento.

Casimiro apertou a mão de Christina, e disse:

—Vai, e esperemos.