Já não choravam ao separarem-se.
Cumpre narrar, o mais breve que ser possa os antecedentes d’esta fuga.
De uma familia pobre de Pinhel sahira em 1814 um mancebo a assentar praça no regimento de cavallaria de Bragança, onde serviu até furriel. De Bragança passou para Lisboa em 1815. Aqui seguiu os postos até que fez a campanha do cerco do Porto, já major do exercito sitiante, e ahi morreu na ultima batalha. Este militar era pai de Casimiro Bettancourt.
Casimiro sabia que nascera em Lisboa em 1816, e não conhecia sua mãi. Com referencia ao seu nascimento, apenas possuia a pagina de uma velha carteira, que dizia: «Meu filho Casimiro nasceu em 15 de janeiro de 1816: foi baptisado em S. Domingos de Santarem, aos 22 do mesmo mez. Foi creado no Cartacho, d’onde sahiu em 1820. Entrou no collegio dos Nobres em 1825. Tenho pago todas as prestações até hoje 31 de dezembro de 1830.» Em nenhum outro caderno de apontamentos encontrou indicios de sua mãi; nem das muitas cartas que seu pai deixou esquecidas n’um bahu de folha, pôde colligir quaes pertencessem a sua mãi. As que tinham data eram quasi todas muito posteriores ao seu nascimento. Apenas duas assignadas com a inicial E, posto que sem data, queria e conjecturava elle que fossem de sua mãi: este querer fundava-se um pouco em vaidade, e muito em presagio, como depois se verá.
Morto o pai, e transvertida a ordem politica, claro é que o joven alumno do collegio dos Nobres havia de sahir entre dezeseis e dezesete annos de idade, desvalido, desconhecido, e indifferente a toda a gente. Dos sabidos amigos de seu pai uns tinham morrido, outros emigrado, e outros esmolavam.
Sabia Casimiro que seu pae nascera em Pinhel, e se correspondia com sua irmã, a largos espaços. Achou cartas assignadas por uma Marianna de Bettencourt. Escreveu, ao acaso, á senhora d’aquelle nome, ou ao nome d’aquella senhora. Responderam-lhe que sua tia tinha fallecido em 1832. A pessoa, porém, que respondia, era o viuvo, carpinteiro de seu officio, bom homem que lhe offerecia sua casa, e metade de suas sopas.
Obrigado a optar entre a fome e as sopas do artista, Casimiro foi para Pinhel, auxiliado pela esmola de um condiscipulo, filho de um brigadeiro liberal, camarada do finado major antes de 1828.
O artista redobrou de trabalho para não obrigar o sobrinho de sua mulher a pegar da serra e da enxó. Comprava-lhe vestido á feição de que usavam os moços remediados, e esperava que seu compadre Ruy de Nellas—padrinho d’um filho que mandára para o Brazil, quinze annos antes—cedo ou tarde conseguisse algum decente emprego para Casimiro.
O fidalgo admittia á sua casa e presença o moço, em attenção ao pai, que morrera fiel á justa causa, como honrado e bravo. As filhas do fidalgo achavam-n’o distincto, delicado, bem fallante, e divertido, quando a tristeza, a dolorosa introversão o deixavam dissimular contentamento, que o pobre, a bem dizer, nunca sentiu deveras. Ruy de Nellas mostrava desejos de lhe abrir a carreira da independencia. Aos dezenove annos, Casimiro pensava em ser soldado; o fidalgo, porém, queria que elle fosse padre com um patrimonio fantastico, e o carpinteiro inclinava-se ao generoso parecer de seu compadre.
Sacerdote é que não! Casimiro amava Christina, Chistina ia chorar com elle; e sabia em que sombras de arvores, ou margens de ribeiras o moço ia chorar.