E ella ia, tremendo de medo e paixão, e a pedir resguardo ás azas dos anjos, buscal-o onde elle estivesse. Tremia, mas não corava de pejo. As flôres que viam, invejavam-lhe a pureza. Arquejava-lhe o seio cançado de retrahir-se: cuidava a doce creatura que o espirar alto a denunciava. Era o offegar d’aquelle seio como o da avesinha anciada, que busca, de fronde em fronde, o ninho que lhe desfizeram. De longe o antevia pelos olhos da alma. As lagrimas tem seu odor: só lh’o não presentem os que as deixam gotejar sem misericordia, sem dó.
E quem havia de ter pena do sobrinho do carpinteiro a não ser ella; que o intendera ao primeiro instante de ser amada, e ao mesmo raio ardente se queimára, e, se o timorato moço esmorecia de medo e pejo, era quem o acoroçoava e levantava do seu abatimento?
Exceptuada a cumplice d’este enorme crime—o enormissimo crime de erguer homem pobre olhos affectuosos á filha d’um Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo—o restante do mundo seria contra elle, se podesse adivinhal-o.
Adivinhava-o o padre João Ferreira, quando voltou de tomar as ultimas ordens. A Casimiro disse:
—Subjugue o coração emquanto é tempo. Tenha sempre deante de seus olhos os beneficios que deve ao sr. Ruy. Recompensar-lh’os com desgostos será crueza e indignidade.
Casimiro não respondeu. O amor, aos dezoito annos, quando assim é surprehendido, não sabe mentir.
A Christina disse o padre:
—A maior prova de estima, que v. ex.ª póde dar a Casimiro, é desvial-o de si. Dos dous hade ser elle o mais desgraçado. Na sua idade, menina, o amor é sempre uma creancice, e como criancice se esquece quando é contrariado; porém, a primeira affeição do moço póde ser a ultima e volver em desgraça irremediavel.
—Quem sabe?—disse Christina com pueril audacia e destemor.
—Eu não sei senão que v. ex.ª está amando um homem que seu pae repulsará de casa, logo que desconfiar de tão estranhas intelligencias. A menina será perdoada como inocente, e elle perseguido e castigado como villão. Como penso que assim vem a acontecer, entendo que o seu amor será funesto ao pobre orfão. Seria querer-lhe muito desenganal-o.