Observou padre João que as duas cegas creaturas, depois do aviso, praticavam como se, em vez da censura, recebessem louvores. Buscavam-se mais, escondiam-se mais, e, de dia para dia, pareciam ir declarando a toda a gente o seu amor, como se contassem com o apoio do fidalgo.
Ruy de Nellas chamou o padre e disse-lhe:
—Ó afilhado, tu não desconfias de nada?
—A qual respeito, meu padrinho?
—Que minha filha Christina olha o Casimiro de um certo modo?
—Póde ser que v. ex.ª se não tenha enganado. Eu supponho que se estimam; e meu padrinho não podia embaraçal-os de se estimarem.
—Essa não me parece tua!—exclamou o fidalgo.—Não posso embaraçal-os?! Então quem é que póde?
—Ninguem, meu padrinho: o tempo é que corrige estes defeitos do coração humano. Deixe v. ex. em silencio a suspeita que eu tomo a meu cuidado o descanço de v. ex.ª.
—Nada de pannos quentes!—bradou Ruy de Nellas. Casimiro vai ser posto fóra d’esta casa, e talvez de Pinhel. É assim que elle me paga? É-me bem feito! muito bem feito! Não seja eu tolo de estar aqui de braços abertos para receber desgraçados, que afinal...
Padre João esperou que seu padrinho desabafasse a sua ira, e disse com humilde e pacato animo: