—Sou eu um dos desgraçados que v. ex.ª recebeu nos braços abertos para todos: o que posso dar em troca de tantos beneficios é a lealdade do meu coração, o meu leal aviso em coisa tão melindrosa. Se v. ex.ª perseguir Casimiro, a sr.ª D. Christina, se já o ama como creio que sim, amal-o-ha mais depois. Conheço de fundamento a indole d’esta menina, e algum tanto a de Casimiro. Este moço tem espiritos de condição muito altiva, que se revoltam contra a baixeza em que o lançou a desfortuna. Por vezes me tem fallado do seu futuro com uns raptos de visionario, que me fariam rir, se me não compadecessem. Presagiam-se brilhantes destinos, e esquece-se de que o honrado carpinteiro está a suar para que elle se não avilte no trabalho incompativel com as suas imaginações. Em quanto á sr.ª D. Christina, é minha opinião que esta menina desobedece ao raciocinio, e á força, se lh’a imposerem. Sabe v. ex.ª que, de todas as suas filhas, esta foi a mais remissa em aprender o pouco que sabe, sobejando-lhe talento para muito. Observei que uma palavra aspera m’a afugentava por oito dias, e transtornava todo o anterior aproveitamento. Argumentando d’estas coisas simples, por analogia, todas me levam a crer que o emprego de providencias energicas dará mau resultado.

—Qual?!—atalhou o fidalgo.

—Uma fuga, uma vergonha.

—Tu pensas isso, João?!

—Ousaria eu dizer a meu padrinho o contrario do que penso?!

—E os ferrolhos dos conventos para que se fizeram?

—Para as freiras estarem seguras da inviolabilidade de suas pessoas.

—E para as filhas rebeldes.

—A rebellião continua nos conventos, a rebellião do espirito, contra a qual não prevalecem os ferrolhos.

—Veremos.