—Seria acêrto não experimentar, meu padrinho.
—Então que queres tu que eu faça?: Deverei cazar minha filha com o sobrinho do carpinteiro?
—Não, senhor. Penso que v. ex.ª, simulando inteiro desconhecimento do que se passa, deve favorecer Casimiro para que siga a vida militar que deseja.
—Agora! agora que elle ousou pôr olhos em minha filha! o ingrato! pois não! Vou mesmo agora estabelecer-lhe mesada em Coimbra ou Lisboa para elle se formar em mathematica, e namorar-me de lá a filha! Estavam bem avisados os pais, se tivessem de mandar a Coimbra os maltrapilhos que lhes requestam as filhas! Não haveria ahi aprendiz de sapateiro, que se não fizesse galan das herdeiras ricas! Ora, sr. padre João Ferreira, outro officio! Não sei em que livros e em que terras tu foste estudar e experimentar semelhantes desconchavos. Eu consultarei o meu travesseiro...
—Deus responda ás suas consultas, meu padrinho—disse o padre, quando o fidalgo lhe voltou as costas.
No dia seguinte, ás cinco horas da manhã, já o fidalgo estava a pé, e abria subtilmente a janella do seu quarto sobre o jardim cujo muramento partia com a rua. Viu elle Christina sahir ao terreiro pela porta da cozinha, atravessar as aleas de amoreiras, destrancar um postigo de communicação com a estrada, e debruçar-se no peitoril. Desceu Ruy de Nellas, de manso, ao jardim, e ia já em meio, quando a filha deu tento da espionagem. Soltou um ai; mas de turvada que ficou, nem aviso deu a Casimiro. O pai apertou o passo, correu impetuosamente ao postigo, e viu o moço quieto, e sereno como se a surpreza fosse um gracejo de futuro sogro, que se entretem a fazer foscas ao futuro genro, muito do seu agrado.
Não assim Christina, que, passado o momento do spasmo, dobrou o joelho e balbuciou:
—Meu pai, eu é que sou a culpada!
Não attendeu, nem acaso ouviu estas vozes o fidalgo. Inclinou-se á estrada, e exclamou:
—Vá lá contar a seu tio carpinteiro a maneira como vossa mercê pagou a hospitalidade, que lhe dei! E não me torne a rondar a casa, que não vá algum dos meus criados apalpar-lhe as orelhas!