V
Veredas penhascosas
Ruy de Nellas, contente do feito, mas não seguro ainda, scismava na escolha do convento em que devia encerrar Christina, quando o padre João Ferreira chegou de dizer missa. Chamado a dar seu voto, o sacerdote respondeu que obedecia, mas não aconselhava; que iria onde s. ex.ª o mandasse negociar a reclusão de D. Christina, mas declinava de si o minimo de responsabilidade em uma violencia, sobre inutil, perigosa.
Excitado pela colera, o fidalgo foi de encontro á prudencia do padre com termos rudes; mas a humildade do servo paciente despontou-lhe as iras, e introverteu-lh’as no seio em arrependimento. Ruy quasi lhe supplicou o seu voto. Padre João repetiu o que dissera, e contou a situação em que deixara Casimiro Bettancourt. Outra vez se irou o fidalgo, ouvindo o tom lastimoso com que o padre fallava do filho do major; porém, não sabemos dizer porquê, marejaram-se-lhes de lagrimas os olhos, quando o clerigo disse:
—Agora vou ver se encontro o desgraçado ahi pela serra, que não vá elle tentar contra a vida, e, matando-se, legar a v. ex.ª uma tristeza pezada de mais para seus annos e sua nobre alma.
Sahiu o padre, e, ao anoitecer, encontrou Casimiro deitado na terra humida, com a cabeça na pedra, e o rosto chammejante de febre. Agitou-o, ergueu-o, amparou-lhe os passos, até o trazer á estrada, e d’ahi quasi em braços a casa do carpinteiro.
Conversaram até altas horas da noite. Casimiro ouviu as ultimas palavras do padre, e disse:
—Farei a sua vontade.
A vontade de padre João era que elle sahisse de Pinhel, e fosse a Bragança assentar praça. A resistencia de Casimiro fôra pertinaz, até ao derradeiro golpe, que o padre lhe descarregou, dizendo que a demora d’elle em Pinhel seria a causa á clausura de Christina. Casimiro sentou-se no catre, embebeu o suor frio da face na dobra do lençol, e exclamou:
—Irei.