E foi cinco dias depois, caminho de Bragança; mas, ao fim do primeiro dia de jornada, adoeceu perigosamente. O sangue refervido no peito principiava a vulcanizar-lhe a cabeça. Deram-lhe uma enxerga, n’uma taverna de Escalhão, e um padre que, em virtude de o ter confessado e ungido, pôde saber que o viandante era de Pinhel e se chamava Casimiro Bettancourt.

O carpinteiro ergueu mão do trabalho, embolçou as economias do seu mealheiro, e foi caminho de Escalhão. O anjo do amor estava á cabeceira do enfermo repellindo a morte. O coração repuchára a si a onda escaldante de sangue, que banhara o cerebro, e espedaçava-se para deixar resurgir a rasão. O artista esteve nove dias e nove noites ao lado de seu sobrinho. Quando se lhe acabaram os escassos recursos, que levára, empenhou a cruz de prata, que trazia ao peito; e pediu primeiro ao Crucificado que lhe désse a vida do sobrinho de sua mulher.

Ao decimo dia, o carpinteiro construiu uma camilha n’um carro de lavoura, e Casimiro, convalescente, foi transportado a Pinhel.

Ruy de Nellas e suas filhas, tirante Christina, passeavam n’uma alameda fóra da povoação, quando o carro chegou. O carpinteiro, que caminhava lentamente apoz o carro, descobriu-se, á vista do fidalgo, e disse:

—Guarde Deus a v. ex.ª, sr. compadre.

—Que levas ahi, Antonio?—disse o fidalgo.

—É meu sobrinho.

—Teu sobrinho?—Disseram-me que tinha ido assentar praça. Querem ver que elle foi ferido em alguma batalha?

—O sr. compadre está a mangar com os pobres!... respondeu o carpinteiro com um sorriso mais de pungir que propriamente a injuria.

N’este lanço, Casimiro Bettancourt affastou a ourella da manta, que formava o pavilhão do carro, pôz fóra o rosto macerado, e disse: