—Sr. Ruy de Nellas, quem me feriu na batalha foi a espada da honra. Agora vou eu travar uma batalha com o orgulho de v. ex.ª: veremos quem é o vencido.
—Ora, sôr Casimiro!—replicou o fidalgo galhofando sarcasticamente—as suas ameaças tem muita graça... passe muito bem.
E proseguiu no passeio, chibatando, com ares de Tarquinio ou Pombal, as florinhas que se abriam por entre o ervaçal que arrelvava a alameda.
—Chama lá os bois, moço!—disse o artista ao carreiro.
Christina encerrada voluntariamente em seu quarto, nem de suas irmãs era já bem vista. As outras senhoras, como izemptas e intactas de coração, conservavam os espiritos excelsamente afidalgados, e levavam muito a mal que sua irmã as quizesse aquinhoar no desdouro de um casamento desegual. O fidalgo obrigára Christina, nos primeiros dias, a tomar o seu lugar na meza commum; como visse, porém, que ella escandalisava a familia com suas lagrimas ordenou que lhe levassem as criadas os alimentos ao quarto. E assim se finava a pobre menina, desconsolada da voz humana, e descrida da misericordia divina.
Peregrina, a sua confidente, a sua alegria, tinha ido com o irmão para S. Julião da Serra. Queria escrever-lhe: mas que portador ousaria levar-lhe a carta? Pensava em fugir para ella; mas com quem, com que recursos? A não ser ella, quem faria chegar ás mãos de Casimiro as suas cartas, o adeus sùpremo de sua alma, ao arrancar da vida? Respondia-lhe o calado pavor da soledade ao afflictivo interrogatorio, em que se debatia, e já por fim, desesperava.
Havia na caza um criado moço, que Casimiro Bettancourt ensinára a lêr nas horas feriadas dos domingos. Nunca os dous namorados fiaram d’elle segredos seus; mas o muchacho, que era atravessado, adivinhava o que não via, e espreitava para examinar se tinha adivinhado.
Soube elle que o seu mestre de leitura chegára doente n’um carro, viu que o fidalgo e as meninas andavam a passeio, foi de corrida a caza, bateu de mansinho á porta do quarto de Christina, e disse-lhe pelo espelho da fechadura:
—Fidalga, o sr. Casimiro chegou agora doente n’um carro.