Este rapaz de nove annos faz lembrar o mosquito que matou o leão, e o braço fundibulario que derribou o gigante. Ahi estão a vigilancia e omnipotencia de Ruy de Nellas Gamboa de Barbedo, senhor solarengo mais velho da Beira Alta, anniquilladas pela intervenção do pegureiro, que o senhor feudal nunca distinguia dos carneiros que apascentava!

O effeito das primeiras cartas foi uma transfiguração maravilhosa no semblante de Christina e Casimiro. Já ella punha as mãos e ajoelhava a orar: é certo que, pelo ordinario, attribuimos ao demonio o mal acintoso, que o mundo nos faz, e agradecemos a Deus o bem casual ou intencional que nos faz o mundo. Tudo isto redunda em elogio de Deus e nosso.

Ruy entrou pensativo em casa, dizendo entre si: «Mal fiz em a não metter no convento; mas ainda não é tarde.»

Mandou vir á sua presença os creados e creadas, excepto o José-pastor, como lhe chamavam. O rapasito ainda não gosava honras de creado appellavel para assumpto grave. Declarou o fidalgo que faria entrar n’uma cadeia o servo ou serva, que levasse ou trouxesse cartas entre sua filha e Casimiro. Os creados innocentes e impeccaveis n’esta materia—por isso que zelavam a fidalguia do seu amo contra o plebeismo do sobrinho de mestre Antonio—juraram de espreitar os passos de Casimiro, e, em testemunho de sua probidade, offereceram-se a quebrar-lhe as costellas, sendo necessario.

Ruy de Nellas despediu-os satisfeito, e disse entre si: «Tanto faz tel-a fechada em casa, como no convento. Parece-me até que está mais segura aqui.»

José-pastor ouviu a creadagem na cosinha discorrer ácerca da recommendação do fidalgo, e fez que não intendia. D’ahi a pouco, andava elle no pateo a escrever com um pau carbonisado o seu nome nas lages pollidas, e de vez em quando olhava, por debaixo do avental de saragoça, contra a janella de Christina.

Viram-se. E elle escreveu a palavra carta, olhando de revez e indicativamente para a menina. Fez ella um gesto de intelligencia, e elle aspou a primeira palavra com os pés, e escreveu n’outra lage: telhado. Outro signal de comprehensão, e logo outra palavra: torre, e depois trapeira.

Queria isto dizer que elle ia ao postigo de uma especie de pombal, que lá chamavam torre; que lançava de lá a carta ao telhado; e que fosse Christina á trapeira, superior ao seu quarto, e colhesse a carta.

Sahiu-se excellentemente com a traça, e até sobreexcedeu o programma; porque a menina, recebendo uma, atirou outra carta á base da torre, e o rapasinho, que era optimo volatim em esgalhos de arvores, pendurou-se pelos pés no banzo do postigo, e com um troço de uma aguilhada de seu uso pastoril arpoou o papel. Estas habilidades é que Casimiro Bettancourt lhe não havia ensinado com as primeiras lettras. Se a instrucção primaria lh’as desenvolveu, isso é materia para mais dilatadas e opportunas pesquizas.

Aligeirando o alcance d’estes successos, até ao ponto em que os deixamos na vigairaria de S. Julião da Serra, direi que a fuga estava pactuada desde as primeiras cartas, que se trocaram. As apostillas subsequentes versavam sobre qual caminho e destino convinha seguir. Casimiro lembrava-se do condiscipulo de collegio a quem devia o favor de dinheiro com que jornadeára de Lisboa a Pinhel. Presumia elle que, se fugissem para Lisboa, e procurassem aquelle amigo, achariam protector para alcançar-se um emprego. Mas um fio de espada lhe cortava por alma e coração, quando a nevoa negra da pobreza se lhe punha diante da esplendida aurora do seu dia feliz. Quem lhes daria meios para caminharem até Lisboa?