—Se é isso, Casimiro—redarguiu mestre Antonio—leva o dinheiro todo, que eu tanto faço com elle como sem elle. Assim como assim, duzentos mil réis não me quitam de trabalho. Gosto bem de te ver botado ao caminho da vida. Vai, moço; que o mundo é p’rós homens. Teu pai sahiu d’aqui com duas camisas n’uma trouxa, sentou praça, e morreu major na flôr da idade: teria quarenta annos. Se não morre, e o seu partido vinga, podia acabar general. Tira-te d’aqui d’esta aldeia, homem! Tu tens lá umas ideias que precisam de terras grandes. Vai-te á vida que eu cá estou com o meu pouco para te acudir nas necessidades. Logo que teu primo mande mais dinheiro, lá irá ter onde estiveres. Se um dia tiveres de teu, e eu já não poder com o machado, então me irás pagando como poderes.
Casimiro debulhava-se em lagrimas, abraçado ao carpinteiro, que embebia as suas no canhão da jaqueta de saragoça remendada nos cotovellos. Aquella jaqueta deshonrar-se-ia grandemente se a puzessem á beira de muitas fardas batidas a ouro e coalhadas de veneras!
Era como picar de remorso o doer-se de Casimiro. Mentir assim aquelle velho tão bom, tão franco, tão desprendido, tão pobre!
Não importa! A sua paixão absolve-o já; o homem honrado e illudido absolvel-o-ha depois.
Tinha, pois, Casimiro dinheiro para a fuga; d’isto avisou Christina; a menina, porém, instava pelo casamento em S. Julião da Serra, e o moço, de vontade e coração, condescendia, e desejava assim tão abrasadamente como ella.
Ruy de Nellas encontrou o carpinteiro, e não lhe fallou, nem respondeu á saudação com um gesto sequer.
—Porque está de mal commigo, sr. compadre?!—perguntou o operario com magoada submissão.
—Porque és um ingrato!—bradou o fidalgo.