—Ingrato, senhor! Nemja isso! Deus me não ajude, se eu sou ingrato a v. exª!

—Tens ahi teu sobrinho, que deu um pontapé no seu bemfeitor, e causou a desgraça de minha filha, e a tristeza de minha casa!

—Meu sobrinho, sr. compadre, fez mal, é verdade; mas o mal está remediado. Meu sobrinho vai-se embora por estes dias. Vai para Lisboa continuar os seus estudos. Leva duzentos mil réis que eu recebi do meu filho e afilhado de v. ex.ª, e por lá ficará até se fazer homem como meu cunhado.

Ruy de Nellas deu um grande suspiro de desabafo, e disse:

—Fallas-me verdade?

—Como quem se confessa, fidalgo.

—Então compadre, o dito por não dito. Se eu soubesse que elle estava ainda em tua casa, por falta de meios, o dinheiro dava-t’o eu, sem elle o saber. Quando é que vai?

—Estão-se fazendo umas camisas, e, o mais tardar no fim da semana, vai com Deus.

N’este dia á noute, Ruy disse a uma das filhas:

—Vai ao quarto de tua irmã, e diz-lhe com bons modos que venha tomar chá comnosco. A tempestade está a passar: é preciso que a trateis, como d’antes, d’aqui por diante.