—Doente de cama.
—Coitado! E Peregrina? Conhece a irmã do vigario?
—É minha mulher.
—Ah! sim? quanto folgo! Já cá sabiamos que ella casára bem.
—Estimo-a muito, que é digna d’isso.
—E vm.ᶜᵉ creio que é lavrador abastado...
—Graças a Deus, tenho mais que o necessario...
—Queira sentar-se. Esqueceu-me de o mandar sentar, com a satisfação de ver o marido da nossa Peregrina... Satisfação, digo eu!... Vão por cá muitissimas afflicções, senhor... como é a sua graça?
Ladislau, criado de v. ex.ª
—Muitas afflicções, sr. Ladislau! Cahiu em minha casa um raio!... Deus... não sei que mal lhe fiz! Eu, que faço o bem que posso, que dou tudo quanto me sobeja aos pobres, que eduquei minhas filhas na religião de meus avós, estou aqui esmagado por uma vergonha, que me está cavando a cova!... Quando ha sete annos me morreu minha mulher, pedi a Deus a morte: oxalá que elle me tivesse ouvido!... Logo, em seguida, morreu o meu unico filho varão. Resisti ainda. Depois vi cahir o Senhor D. Miguel do throno á miseria da proscripção, e fiquei ainda em pé. Agora... agora... esta punhalada corta-me o ultimo fio! Nos tres infortunios passados, o Senhor Deus dos afflictos collocou a meu lado um dos seus apostolos, que me amparou, e me fechou as chagas com o balsamo da religião. Era um frade da sua freguezia, creio eu: Fr. Braz Militão do convento de Vinhaes. Morreu o santo, que passou tres noutes á cabeceira do meu leito, quando enviuvei. Elle tinha experimentado a minha dôr, porque vestira o habito de frade mendicante, quando Deus lhe chamou sua mulher...