Ouviu-se um prolongado assobio como o dos caçadores em montados: era o vigario que chamava o hospede. Casimiro respondeu, e Peregrina, puchando do peito, quanto pôde, a voz, gritou:
—Cá vamos todos.
E, como todos rissem do agudissimo falsete da jubilosa Peregrina, o vigario percebeu logo a impaciente felicidade que não pôde esperar pelo dia seguinte.
E subiu a ladeira até encontrar o grupo.
—Abençoou Deus a tua resolução, já vejo!—disse padre João Ferreira ao cunhado.
—Abençoou: pódes tu abençoal-os, meu irmão.
E os dous ficaram alguns passos atrazados, para irem conversando sobre os successos de Pinhel, e os futuros em que os noivos não pensavam, nem era generoso dizerem-lh’os.
Ninguem dormiu, n’aquella noite, na residencia de S. Julião. O vigario sahiu, ante-manhã, a solicitar licença do arcipreste para casar os contrahentes sob sua responsabilidade sem o previo pregão de banhos. Obtida, voltou á egreja, e ouviu de confissão os desposados; e, em seguida á ceremonia da communhão, ligou-os, abençoou-os e disse-lhes:
—Ficam sendo os dous uma só alma para as alegrias e para as provações. Deus voltará a sua face divina d’aquelle dos dous que attribuir ao outro o seu infortunio; e nós, os amigos de ambos, verteremos lagrimas de sangue se os virmos infelizes, infelizes á mingua de conformidade e fortaleza. Deus os tenha de sua mão.
Celebrado o matrimonio, almoçaram na residencia, e sahiram para Villa Cova, onde Brazia, azafamada com o jantar, e duplamente ditosa com o segundo casamento, dava ares de não ter o miolo fixo, no dizer dos outros creados.