A felicidade d’este dia não tem historia: ou se a tem, conte-a o leitor que a experimentou. Mas o meu leitor, casado por paixão, precisamente foi obrigado a attender aos comprimentos de amigos e parentes, uns a louvarem-lhe a noiva, outros a louvarem-n’o a si, estes a brindarem-n’o com vinho, aquelles a perguntarem-lhe pelo dote da mulher: barafunda esta que o não deixou sentir a sua felicidade.
Ora, na casa de Villa Cova, á mesa nupcial, além dos noivos, estavam o vigario, os donos da casa, o carpinteiro de Pinhel, e a velha Brazia. Os noivos repetiram em miudos a historia dos seus amores, os medos, as tristezas, os jubilos, o intenderem-se com a linguagem pactuada das flores. N’este ponto, Brazia ria muito e dizia que os namorados eram o peccado. As espertezas de José-pastor foram contadas por Christina com amostras do bem que queria ao rapasinho. Pediu ella ao marido que se não esquecesse nunca do muito que lhe deviam, e lembrou-se de o mandar estudar para padre se algum dia fosse remediada de bens de fortuna.
—Hade sahir bom padre!—atalhou a ridentissima velha.—Se assim souber espreitar as ciladas do cão tinhoso, muitas almas hade ganhar p’ra Deus!
Com estas e outras festejadas palestras passaram o dia. Ao escurecer, tornou o vigario á sua igreja, com promessa de voltar no dia seguinte, a fim de se conversarem cousas muito importantes.
E nós vamos já ao ponto d’estas conversações decorridas á sombra d’uns altos castanheiros, que pareciam ter alli ficado da idade de ouro para darem testemunho de um feito d’outras eras.
—Diz tu o que tens a dizer, Ladislau—estas palavras proferiu o vigario, logo que as duas senhoras se assentaram na grossa e retorcida raiz d’um castanheiro, e Casimiro á beira d’ellas.
Ladislau voltou-se para seu cunhado e disse:
—Porque não has de ser tu?
—Quem melhor exprime a idéa é quem dignamente a concebeu.