—Pois fallarei—tornou o moço: deteve-se breve espaço, e disse—o sr. Casimiro Bettancourt recebeu educação e tem espiritos que não são para vida aldean, e d’esta aldeia a mais desacompanhada e triste que ser póde. Isto é bom para mim, que nasci cá, e por todas essas pedras e arvores tenho cobrado um affecto de solitario, que todo outro viver se me affigura intoleravel. Que fará o sr. Casimiro, passados estes primeiros dias, em tal solidão? Perguntará a si mesmo: «Que faço eu aqui? Em que empregarei as minhas forças? Porque molde talharei o meu futuro?» Quando assim se interrogar, a resposta será uma melancolica indecisão, com vêr cerrados os caminhos para onde o animo o impelle. Vamos vêr se podemos abril-os para pouparmos o nosso Casimiro á desconsolação de cruzar os braços e dizer: «não sei!» O nosso amigo contou-me que, no collegio, estudava mathematicas, para o fim de seguir a carreira das armas.

—É verdade—disse Casimiro.

—Pergunto eu se lhe agrada recomeçar ou continuar os seus estudos, e ser militar.

—Desejava-o, tenho-o desejado sempre; mas a vida militar desprotegida é má; e, nas minhas circumstancias, o estudar foi e é impossivel agora.

—Não é. O meu amigo assenta praça, e requer licença para estudar em Lisboa, Porto, ou Coimbra. Tenho estas informações de meu cunhado. Eu offereço-lhe os meios precisos para se alimentar com sua senhora em qualquer das cidades que escolher, e assim se habilita para alguma vez me pagar o adiantamento que fôr preciso.

—Mas o meu dote...—interrompeu Christina, com fidalgo animo.

—Não se falla no seu dote—retorquiu Ladislau.—O sr. Ruy de Nellas deu o consentimento; mas não dá dote.

—O dote de minha mãi...—tornou ella.

—V. ex.ª não pede dote nenhum: eu disse a seu pai que a sustentação de sua filha e marido não corriam á obrigação d’elle. Está desobrigado o sr. Ruy de Nellas. Em resumo, o sr. Casimiro quer ser homem, quer a sua independencia, quer empregar dignamente as faculdades, que Deus não dá para ocios ou desperdicios. Resolve-se a abraçar a minha lembrança?

—De toda a vontade, e com o mais reconhecido coração. Diz-me uma voz intima que eu poderei desempenhar-me.