—Eras... mas, desde que eu te amei...
—Fui muito mais desgraçado, filha... Então é que eu me vi pobre, desvalido, sem pai, sem mãi... Que palavra, Christina!... MÃI!... Nunca os meus labios proferiram esta palavra no seio de uma mulher! Nunca, nem na minha desamparada orphandade, correu para mim uma mulher chamando-me filho!... Como pude eu ser privado das caricias de minha mãi!? Como pôde ella abandonar-me, e esquecer-me!? Porque não disse meu pai se ella era morta?!...
—Ahi estás tu a entristecer-te!—atalhou a esposa—Não quero!... Vem cá! Olha, Casimiro, eu chamo-te filho, filho de minha alma, do meu coração! Amo-te mais que todas as mãis! Se alguma vez chorares, eu te consolarei, com um carinho, que as mãis não sabem. Defender-te-hei com mais coragem que ella. Morrerei por amor de ti, porque és tudo que eu tenho. Se Deus me der filhos, heide amal-os menos que a ti, meu amado esposo!... Vês-me tu a mim triste por ter deixado pai e irmãs?... É verdade que meu pai aborrecia-me e minhas irmãs desprezavam-me mas por amor de ti, Casimiro, por amor de eu te querer dar esta felicidade...
—Perdôa-me!—disse elle, beijando-a com estremecimento—Não me lembres o que soffreste, que eu cuidarei que me argues de ingrato. Olha que a minha tristeza é suavissima, ó minha filha. Lembrou-me meu pai, e os seus ultimos affagos; tive saudades de minha mãi, que nunca vi; são uns desejos, que parecem vaticinio de que hei de ainda encontral-a. Vê tu que loucura, que poesia! É este sitio, estas arvores, e a serenidade do céu que me fazem scismar assim... As pessoas, que têm a sua alegria circumscripta ao curto espaço da sua casa, não devem vir meditar nos lugares em que o espirito carece de voar ás raias do infinito. A tristeza está n’ellas, filha. O espirito retrahe-se sobre si mesmo, e doe-se da sua fraqueza. O que é ver ir aquella ave pelo azul do céu fóra, e dizer: «onde irás tu?» É desejo de romper esta rêde de ferro que nos cerca, rasgar os fechados horisontes da alma, e sondar em que mundo irei com o teu espirito perpetuar a minha existencia. E a devanear n’isto, accordam-se na alma todos os enlevos e saudades... Então vejo a sombra de minha mãi e de meu pai, a passarem, a fugirem, como sonhos. Ditoso é o meu accordar, porque te encontro, ó anjo da minha vida!...
E, dizendo, abraçou-a soffregamente, e bebeu-lhe as lagrimas, exclamando:
—É assim que minha mãi devia chorar, quando me lançou de si!...
—Mas eu—exclamou Christina—aperto-te ao meu coração, filho!