Andava D. Sueiro de um lado a outro da sala, sacudindo os braços, em mental soliloquio. Ruy amparava a cabeça entre as mãos, pozera os cotovellos no peitoril da janella, e olhava, sem o ver, para um macisso de murtas do jardim. As apostrophes irrisorias do sobrinho callaram-lhe no animo, a ponto de o irarem contra o vigario de S. Julião. Monologando comsigo, dizia:

—D. Sueiro tem razão. O padre, devendo ser o primeiro a embaraçar o casamento, não só m’o mandou aconselhar como necessario, mas ainda por cima me pediu e instou licença para casal-os. A ingratidão é flagrante! O villão bandeou-se com o outro da sua estôfa. São uns pelos outros estes filhos do nada! Se elle me fosse grato, restituia-me a minha filha, e affugentava o raptor. Longe d’isso, agasalhou-o, sustentou-o, e recebeu-o como se eu lh’o recommendasse!... Tem razão D. Sueiro! O padre merece castigo! Não basta expulsal-o eu para sempre de minha casa: hei de reduzil-o a viver da esmola da missa, se não poder caçar-lhe o exercicio das ordens.

E continuou em voz alta:

—Dizes bem, meu sobrinho: o padre é um refalsado ingrato! Ha de ser punido.

—E o troca tintas?

—Casimiro?

—Sim, o pêrro, o sobrinho do carpinteiro?

—Já disse que é tarde para o mandar castigar.

—Deixe-m’o por minha conta, tio Ruy. V. ex.ª não tem filho que lhe vingue as cans; mas aqui está o braço indomavel do seu sobrinho.