—Não approvo—disse o velho—Estão casados. Já me não poupo á vergonha de receber em minha casa a viuva do homem abjecto. É tarde para remedio. O sangue já não lava a nodoa.
—Nodoa eterna!—acrescentou D. Sueiro de Aguilar.
—Seja o que Deus quizer!—Está visto que regeitas a esposa que pediste, meu sobrinho. Ficaremos em paz; eu com ella, e tu com a tua dignidade limpa. Mas olha que és injusto! Minha filha Guiomar está innocente no delicto de Christina. Faz o que quizeres. Escolhe-a mais rica; mais fidalga dificilmente a acharás em Portugal.
—Sei que é minha prima!—disse modestissimamente o fidalgo de Miranda, e ficou alli, por não ter mais que dizer a tal respeito. Uma prima dos Alarcões Parmas d’Eça não podia ser mais nada em materia genealogica. A D. Guiomar, porém, entre as qualidades dignas de seu primo, sobrava-lhe a de ser tôla, com uns longes de idiota.
O ajuntarem-se estes dous era preordenação, não direi do alto para declinar a influencia divina de sobre as parvoiçadas que se fazem n’este globo; mas, predestinação, isso era, se alguma ha n’esta cousa de encontros e desencontros, que os poetas mirificamente explicam.
E tanto assim era que, n’aquelle mesmo dia, D. Sueiro, vindo de passeio com D. Guiomar affectuosamente disse ao tio que, apezar de tudo, seria seu genro, com a resalva de em sua casa nunca mais se proferir o nome de Christina.
Concordes n’isto, afanaram-se logo em aviar os preparativos. D. Sueiro d’Aguilar foi dispôr suas cousas a Miranda, e Ruy de Nellas enviou ao Porto o feitor á compra do precioso enxoval.
Natural seria que o velho, contente e distrahido, perdoasse ao vigario de S. Julião, ou esfriasse no ardor vingativo até esquecer o ingrato, e desprezal-o fidalgamente.
Assim não foi. A natureza vai tão falsificada que já me quer parecer que andamos a chamar natureza a tudo que é arte: arte, digo eu, synonimo de manha, ardil, malicia e obra de satanaz.
Escreveu Ruy de Nellas ao seu procurador na Guarda, accusando o vigario de S. Julião da Serra. Foi padre João chamado á camara ecclesiastica para responder sobre o casamento irregular de Casimiro Bettencourt e D. Christina de Nellas. Ingenuamente relatou o vigario que os casara com a licença vocal do pai da contrahente. Redarguiram-lhe que era apocrifa a licença, e d’alli sem averiguações o suspenderam do exercicio parochial.