No dia seguinte, chegou á residencia de S. Julião da Serra outro pastor. D’ahi a curto espaço, estava o adro a transbordar de povo. A noticia chegou aos campos, e os agricultores ergueram mão da sáfra, e accorreram ao presbyterio.

Feita a entrega de livros e utensilios da igreja, padre João sahiu ao adro, e disse:

—«Meus amigos, como no pouco tempo, que vos parochiei, não houve espaço de mostrar meus vicios, saio de entre vós sem deixar má nota, escandalo, ou desamor. Como fostes rebanho de um pastor santo, que me antecedeu, achei-vos doceis, bons e virtuosos. Edifiquei-me entre vós, e aprendi a crer na influencia de um bom parocho. Creio que a vontade do Altissimo é que os vossos pastores no futuro não destruam as boas obras dos passados. Elles semearam; vós sois o fructo, e de vós hão de fructear mais gerações. E, por isso, é fé minha que o vigario novo terá o espirito dos antigos. Sêde com elle o que fostes comigo. Ficai com Deus.»

Os ouvintes abraçaram-o em tropel, debulhados em lagrimas; e elle, ensopando com as suas a manga da batina, encostou-se ao hombro de Ladislau, e caminhou para Villa Cova.

Á mesma hora, Ruy de Nellas, humilhado pela consciencia na batalha com o orgulho, escrevia ao procurador, mandando-o que fosse ao paço episcopal e encarecidamente solicitasse o pôr pedra sobre o processo contra o padre vigario de S. Julião da Serra, e levantar-se a suspensão. E desculpava a mudança de seu animo, com ter-se lembrado que déra verbalmente a licença, e o padre, em virtude d’isso, procedera regularmente. Encarecia em termos afflictos os seus escrupulos e remorsos, pedindo a maxima brevidade no levantamento da suspensão, e retirada do novo vigario.

Ora vejam que alavanca de ferro a prostrar um soberbo, foi a humillima carta de padre João! Estas victorias dá-as o Evangelho; e as bandeiras triumphaes são estas. Que é vencer Cezar a Pompeu, ou Scipião a Annibal? Que é Roma armada avassalar o mundo? Que é Napoleão devastando reinos e homens á frente de milhões de escravos? Dobrar o orgulho de um homem, quando se lhe pede perdão d’um inventado aggravo, isso sim é que é vencer. Qual philosopho, antes do divino Christo, ensinou a citar ao tribunal do juiz supremo a consciencia d’um mau, e fazêl-o ahi accusar-se, dobrar-se, condemnar-se, e reparar o ruim feito, a affronta, a injustiça?

Alguns dias passados, padre João Ferreira era restituido á posse da igreja, visto que ulteriores informações abonaram a regularidade do matrimonio accusado indevidamente.

O povo da freguezia exorbitou da sua costumada prudencia, saltando por cima das admonendas do seu vigario. Os mais enthusiastas fizeram fogueiras como em noute de S. João, e correram a freguezia com esturdias instrumentaes, e foguetes de lagrimas. Cotizaram-se seis lavradores abastados para celebrarem o successo, n’um aprazado domingo, mandando fabricar um balão na Guarda, e comprar na botica os ingredientes para a ascensão, com grande copia de girandolas e quantas invenções pyrotechnicas se achassem na Guarda e Vizeu afóra a musica de Pinhel. O vigario empenhou rogos e authoridade em demovêl-os; porém, como os visse inquebraveis no intento, chamou elle artificiosamente a si o dinheiro destinado ás festivas despezas, obrigando-se a fiscalisal-o do melhor modo.

Chegou o domingo aprasado. Logo de madrugada os lavradores foram á residencia do vigario a tomar conta dos objectos que deviam ter chegado no sabbado. Padre João mostrou-lhes uma arca de pinho, e disse: