Chamado o duodecimo, que subiu amparado por dous netos, o padre mandou conduzir da sachristia para o arco da egreja a arca de pinho, que os lavradores tinham visto na casa parochial. Abriu elle a caixa, e foi tirando e repartindo por cada um dos doze pobres uma roupa inteira de pantalona, colete, e véstia de saragoça. Os velhos recebiam com mãos tremulas a esmola, e murmuravam palavras de benção, e alimpavam os olhos turvos de lagrimas para verem o seu remedio do proximo inverno. Finda a repartição, o vigario, procurando com os olhos os lavradores cotisados para a funcção, disse-lhes:
—Aqui está, meus amigos, o balão que chega ao céu; ali tendes no rosto d’aquelles anciãos invalidos e doentes, as lagrimas, que são lagrimas de graças ao Senhor e de gratidão a vós. Haveis de confessar que as lagrimas dos foguetes são menos brilhantes e consoladoras. Quanto á musica, dir-vos-hei, meus bons amigos, que os anjos do céu assistem com suas musicas a esta vossa festa. Se fiscalizei mal os vossos trinta e seis mil réis, accuzai-me para eu vol-os repôr.
Disse, e logo um, e todos os lavradores lhe foram beijar a mão; e os pobres, a não serem retirados brandamente, iriam beijar-lhe os pés.
Ao meio dia em ponto, no sobrado da residencia, estava posta uma mesa com treze pratos. Na cabeceira sentou-se o vigario, e os doze pobres já lavados e vestidos, lateralmente. O jantar viera cosinhado de Villa Cova: o bodo aos pobresinhos fôra devoção de Peregrina.
Ladislau e sua mulher serviram os convivas, um de cada lado, já partindo em pequeninos bocados a ração de cada pobre, já ministrando-os á bôcca do mais intrevado que se não servia de suas mãos.
Em redor da meza, de pé, silenciosos, e com que arrobados n’aquelle espectaculo santo, estavam os principaes lavradores da freguezia. Por vezes, uma ou outra voz, mal desabafada das lagrimas, murmurava:
—Louvado seja o Senhor!
E, cada lavrador enxugava os olhos.
Concluido o jantar, ergueu-se o sacerdote, e deu graças a Deus, em voz alta; e, ao sahir da meza, proferiu estas palavras:
—Louvemos o Altissimo porque nos deu coração para sentirmos as alegrias da caridade. Esta virtude, que commove até aos prantos consoladores é a sombra dos contentamentos da bemaventurança. Meus amigos, a vossa festa acabou; mas eu espero em Deus que haveis de vêl-a continuada no céu.