Da vara de Epicuro idoneo porco.

HORACIO, Epist., Liv. 1.

E o litterato, como a filha do infante lhe não contradissesse a linhagem realenga, nem lhe nevasse desdens sobre o coração ardente, pediu explicaçoens á mãe, que lh'as deu, senão lisonjeiras, inoffensivas do seu orgulho.

Era muito para lastimas vêr aquelle rapaz tão soberbo dos desaforados brazoens que lhe procediam da deshonestidade da avó! Tolejando chimeras da sua mascavada jerarchia, cachoava-lhe o sangue como no empenho que, mezes antes, desvelára em nivelar-se com a plebe, no intento de lhe trepar aos hombros sordidos para de lá ser visto. E ahi, no atascadeiro da escumalha social, era elle mais nauseativo,{42} porque toda a gente limpa se arreda do cerdo que sahe d'um esgoto, sacudindo-se.

Operou-se, todavia, notavel mudança no genio e costumes de Victor Hugo, restituido á liberdade. Os mais aristocratas fautores do grupo absolutista acarearam-no ao seu gremio, ás suas assemblêas clandestinas, ás suas novenas secretas, e á sua maçonaria, se tal nome quadra á ordem de S. Miguel da Ala, na qual o adepto foi armado cavalleiro, chamando-se Fuas Roupinho—nome de guerra.

Entretanto, a menina revelava-lhe candidamente sentimentos de affectiva gratidão, e folgava que elle se nobilitasse na convivencia de pessoas distinctas e amigas de seu real progenitor, as quaes lhe confiavam cartas do principe para que a filha as visse, e por ellas lhe repontasse aurora de esperança na longa noite da sua saudade filial.

Mas, na correnteza d'estes successos, Victor, por muito que melindrosamente escrutasse o coração de D. Maria José, não se via lá. Sem embargo, o cavalleiro de S. Miguel da Ala, cobrando alentos, prudencia e heroismo do seu patrono Fuas, confiára-se aos lances do acaso, ás transformaçoens do tempo, á versatilidade femeal, e, em fim, a um imprevisto rapto de amor, não raro em peitos sensiveis das senhoras.{43}

Outra coisa agora.

Não é vulgar contarem romancistas de que vivem os poetas das suas novellas. Provavelmente, como os desenham mais em espirito que em substancia adiposa, esgalgados, esbatidos, fumarentos, na vigesima dynamisação de fibrina, mais ethereos que azotados, o publico incauto cuida que elles não comem, e se nutrem das brisas lusitanas, pelo mesmo systema physiologico das eguas portuguezas que concebiam das mesmas brisas, segundo assevera algures frei Bernardo de Brito e eu tambem.

Muitos annos ha que escrevo biographias de poetas e outras pessoas phantasticas, sem descurar o capitalissimo predicado da sua maneira de se alimentarem.

Bem sei que vae n'isto prosaismo plebeu, e por isso me hão de malsinar de immortalisador de bagatellas com egual razão da que apódam Camoens por entremetter na vida epica de Vasco da Gama o tacanho caso de não se ter podido vender de prompto a pimenta que o heroe ia negociando nas feitorias asiaticas. Ora os criticas fingem não saber que a pimenta, o cravo e a canella explicam melhor que todo o restante poema o patriotismo de D. Vasco; e que, na mesma razão explicativa, está para Victor Hugo{44} José Alves o bife do Mata, a dobrada do Penim, o pato da Praça da Alegria, e o linguado da Taverna ingleza.