—Poucas viuvas se portariam como eu me portei... ficando pobre e bonita, sem amparo de alguem, senão da snr.ª D. Marianna de Portugal, sua mãezinha, que nos valeu em grandes apêrtos...
—Não esteja agora a lembrar-se d'isso, minha senhora...—atalhou D. Maria José—Está bom, está bom, conversemos n'outra coisa...
—Tudo isto que eu disse—volveu a viuva do pedreiro-livre—veio a proposito do meu filho escrever n'esta carta que os seus avós são parentes da familia real. Se eu sou filha de quem sou, e elle é meu filho como de facto é, ninguem póde duvidar que nobreza não nos falta... assim nós tivessemos dinheiro, não acha?—E ajuntou sorrindo e festejando as faces de D. Maria com dengosas meiguices:—Socegue, menina, socegue que meu filho não está doudo nem para lá caminha. O que elle aqui diz na carta é verdade pura, e bem certa estou que foi a paixão que o obrigou a declarar isto; porque elle foi sempre republicano e nunca se lhe importou com os avós; pelo contrario,{39} quando eu lhe contava quem era meu pae, o rapaz mettia-me a ridiculo, e até uma vez lhe preguei uma bofetada por elle me dizer que acreditava que eu fôsse fidalga por ser muito burra.
D. Maria deu visiveis signaes de enfastiada da longa pratica, e assim tratou de cortar o discurso por onde Rozenda pendia a lhe propôr francamente o enlace com o filho.
Voltando despeitada a casa, contou a albergueira o succedido, e concluiu por estas acrimoniosas palavras aceradas com um perverso sorriso:
—Ella não quer casar com o nosso Victor... tu verás... Enfeita-se para o primo duque de Cadaval provavelmente... Ora queira Deus que eu não venha a pôr-lhe a calva á mostra... O folheto ainda ali está na gaveta...
—Ó mulher!—accudiu Euphemia—não me falles no folheto, que já foi a causa da morte de D. Marianna! Tu bem sabes que tudo que ali escreveram é falso... Não mettas a tua alma no inferno! Deixa-a lá casar com quem ella quizer.
Ora este folheto...
A seu tempo.{40}
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