—Talvez não saiba uma coisa que minha bisavó contou a minha mãe... E era que a freira recebia o rei na cella, e que o rei saía de lá até á portaria debaixo do pallio com a abbadeça atraz e mais a communidade.
—Não me conte similhante desatino, que isso é calumnia!—acudiu a neta do fundador da egreja patriarchal de Lisboa.—Affligem-me...—tornou D. Maria molestamente nervosa—Affligem-me essas funestas e deturpadas paginas da historia de minha familia.
—Eram usos d'aquelle tempo, minha senhora—observou ethnographicamente D. Rozenda Picôa.—As freiras tinham enguiços que enfeitiçavam toda a fidalguia e mais os frades, que era mesmo uma pouca vergonha—perdôe-me a expressão, que não é muito civilisada. E então o snr. D. João V? Isso era um ratão!{35} Olhe que ajuntou na Palhavan tres filhos de differentes mulheres! Mas bom pae era elle, honra lhe seja! Dizia minha avó que os poz todos ao serviço da egreja, fazendo-os inquisidores, e arcebispo um d'elles, chamado o Flor da Murtha. E os amores que elle teve com aquella cigana, chamada Margarida do Monte...
—Acabe com isso, snr.ª D. Rozenda!—interrompeu D. Maria José offendida pela teimosia de escavar escandalos nas cinzas do creador da capella de S. Roque.
—Pois sim, menina, eu vou acabar o que tinha a dizer. Como eu vinha contando, minha mãe foi educada em Odivellas com uma freira muito pronóstica, que eu ainda conheci na rua da Bombarda a viver com o prégador da casa real, o padre José Agostinho de Macedo, muito amigo do seu paezinho. Ora minha mãe casou com um sujeito que ella imaginava cavalleiro, porque o viu a cavallo na companhia de alguns fidalgos que namoravam as freiras; e, só depois que casou, é que soube que elle era estribeiro dos condes de Povolide. Ora imagine, minha rica senhora, a embaçadella que levou a noiva quando soube com quem estava casada, tendo rejeitado as offertas de muitos titulares que lhe tinham querido pôr casa e sege em Lisboa! Emfim, não havia remedio a dar-lhe. Resignou-se com a sua{36} sorte, e foi viver ás Picôas no palacio onde estava o impostor do homem. Minha mãe era tão querida das fidalgas que até a levavam comsigo a visitas como aia e mestra dos meninos. Os senhores da casa e de fóra perseguiam-na de dôr de ilharga, perdôe-me a expressão, que não é muito civilisada; ao mesmo tempo que o libertino do marido andava á gandaia por touradas e pagodes, sem se importar com ella. As mulheres não são santas, não é verdade, menina? Minha mãe era uma perola! Ai! que anjo do céo aquelle! Já não nas ha d'aquella raça! Resistiu ás tentaçoens, passante de dois annos; mas, por fim, o coração desconsolado da infeliz esposa enfraqueceu, e... rendeu-se!
Deteve-se D. Rozenda algum tempo recolhida na sua dôr, e continuou:
—Depois d'aquella desgraça, nasci eu. Meu pae era um alto dignatario da egreja, que morreu d'apoplexia, na véspera mesmo de um sabbado em que tencionava reconhecer-me e fazer testamento a meu favor e da minha irmã Euphemia, legando-nos os appellidos e uma herança em harmonia com o nosso nascimento.
Aqui, D. Rozenda, a malograda herdeira, limpou os olhos onde apenas espumava a humidade serosa d'uma ophtalmia chronica. Depois, ajuntou com suspirosas intercadencias:
—Minha pobre mãezinha morreu de saudades{37} de meu pae... sim, de meu pae... quero dizer do outro, percebe a menina? O homem d'ella morreu primeiro d'uma borracheira em Queluz, onde foi com os fidalgos de bambochata. Achei-me sósinha com minha irman, tidas e havidas na baixa conta de criadas de nossas primas. Esta posição não se dava com a nobreza do meu sangue. Quiz vêr se me admittiam como criada ordinaria do paço. A mãezinha de v. ex.ª, que tinha então muito valimento, e nós conheciamos desde que a vimos, linda como as estrellas do céo, a passeiar leites na quinta das Galveas, pediu por nós; mas não havia logar. Resolvi casar-me com o primeiro homem endinheirado que me fizesse a côrte, fôsse elle o proprio diabo em pessoa. Appareceu-me neste comenos o meu defunto Alves, que constava ter cincoenta mil cruzados em sola e dinheiro. Casei-me. Ai! foi outra logração como a que levou minha mãe que Deus haja! Ora oiça, menina. O meu esposo, desde que os chamorros o fizeram pedreiro-livre e regedor, e lhe deram o habito de Christo, não quiz saber mais de negocio. Entregou os armazens aos caixeiros, que nos roubaram; e, á volta e meia, foi-se tudo, e aqui fiquei eu viuva, na flôr da edade, com o meu Victor no berço, e... quer saber? Ainda tive de pagar as custas d'uma querella por causa d'umas cacetadas{38} que meu marido dizem que dera nas eleições!
D. Rozenda, neste agoniado lance da sua chronica, escumou os olhos com o lenço, e proseguiu, em quanto D. Maria a contemplava com enternecido semblante: