Pediu explicaçoens a sobresaltada mãe.

Hesitou algum tempo D. Maria José; mas, obrigada pelas instancias, mostrou a carta.

O carão da viuva, já enfiado de susto, ganhou côres quando viu, no contheudo da epistola, o infundado medo da menina.

—Ai! não se assuste, snr.ª D. Maria José...—disse Rozenda velhaqueando certo pudor no tregeito das maxillas—Meu filho está muito em seu juizo... Elle diz a verdade...

—Como?—tornou D. Maria José espantada—Pois a snr.ª D. Rozenda é parenta da casa real?!

—Sou, sim, minha senhora—volveu a filha do ferrador, baixando os olhos com pudicicia que parecia pedir misericordia para as fragilidades da mãe. E proseguiu, tirando dois, suspiros do esôphago, e rolando os olhos na direcção do céo, d'onde provavelmente a estava ouvindo a alma do pae:

—Perdoae-me, minha santa mãe, se offendo a vossa memoria!

E, expectorando outro bafejo a modo de gemido puchado do diaphragma, continuou:{34}

—Minha mãe era galante, e foi educada no mosteiro de Odivellas, onde tinha já estado tambem minha avó, que era sobrinha de uma ama de leite que creou um filho da freira d'el-rei D. João V, a qual freira se chamava por signal a Garça, e o menino chamava-se Antoninho. Não sabia d'estes amores do rei com a Freira, snr.ª D. Maria?

—Ouvi contar...—respondeu a outra, um tanto pezarosa de recordar esta fraqueza do seu quarto avô.