«Para servir-vos, braço ás armas feito;
Para cantar-vos, mente ás musas dada.»
Donde havemos de inferir que para uso de muitos tolos creou Deus as mulheres formosas, e creou Camoens os formosos versos.{31}
[III
D. ROZENDA]
Dizem que disse assim.
BERNARDIM RIBEIRO, Menina e Moça.
D. Maria José de Portugal, bem que muito grata ao denôdo civico do litterato, não entendeu que as filhas dos reis desenthronisados devessem pagar com a moeda do matrimonio um artigo condemnado, que, por via de regra, os emprezarios das gazetas costumam pagar á razão de 800 reis a publicistas de maior pôlpa.
Extremamente delicada, respondeu a Victor Hugo em termos pautados pela mais atilada prudencia, mantendo-se na alteza da sua dignidade, sem aviltar os brios do pretendente. Escreveu ella muito bem que as mulheres, nascidas nas grimpas culminantes, estavam,{32} por isso, nas borrascas da vida, mais ao alcance dos raios da adversidade;—que não podiam essas invejadas infelizes ser arbitras do seu destino, principalmente, se, como ella, tinham pae a quem a proscripção, usurpadora do throno, não podéra usurpar direitos sobre a alma de uma filha que o respeitava e adorava. Etc.
Com os acicates do orgulho cravados no epigastrico, onde a sciencia diz que as paixões amorosas espoream mais, replicou o bardo absolutista. Dispensando os naturaes raciocinios que desfazem chiméras de castas, combateu as razoens de D. Maria de Portugal, inculcando-lhe a procedencia visigothica de seu avô D. Guterres Pelayo, e o parentesco ainda não safado pelo atrito de dous seculos entre os duques de Bragança e os condes de Povolide.
Maria não replicou, retransida de espanto. Sua mãe havia-lhe dito que as duas irmãs estalajadeiras eram filhas do estribeiro da casa de Povolide, e que Rozenda era viuva de um negociante de bezerro, que malbaratava os seus haveres no partido dos Cabraes. Era-lhe por tanto espantosa nova o parentesco de Victor Hugo José Alves com a casa real.
Como Rozenda a visse meditativa depois que leu a carta do neto de D. Guterres Pelayo,{33} perguntou-lhe o que tinha, suppondo que o amor motivasse aquella abstracção.
A menina respondeu com innocente reparo que o snr. Victor lhe escrevera coisas de fazerem receiar que elle tivesse a razão alterada.