«Á barra!

«Aos tribunaes! aos tribunaes!»

N'aquelle tempo, o pudor dos ministros era mais historico e provavel que o da Lucrecia de Collatino.

O ministerio publico deu a suspirada querella. Inaugurou-se, pois, o martyrio do Victor Hugo portuguez. Condemnaram-no em vinte dias de gloriosos ferros, e nas custas.

É o que elle queria.

Queria a hecatomba, para elle sosinho a gloria, que nos sacrificios antigos tinham os cem bois: hecaton, cem: boûs, boi. (Lardo de erudição que não fecha as portas da academia a ninguem). Queria a hecatomba, a via dolorosa da Boa Hora até ao Limoeiro, para depois, nobilitado pelo holocausto, se consubstanciar no coração de D. Maria. O carcere sorria-lhe como um templo em que, velando{29} as armas, sairía de espora d'oiro, nobre e digno paladim da dama a quem se devotára, apostatando do Evangelho de Mazini, de Cabet, e do Herminigildo do pão barato.

Declarou-se. Ousou remetter directamente á neta dos Braganças o manifesto nem sempre humilde das suas aspirações. Estabeleceu confrontos de casamentos em que a desigualdade do sangue era retemperada pelo amor.

Respigando exemplos na propria familia da noiva requestada, contou a alliança do representante dos senhores de Biscaia com uma neta de um duque de Bragança. Bem é de vêr que o filho de Rozenda ousava equiparar-se aos senhores d'Azambuja e Val de Reis, inculcando-se producto de coito damnado entre o dom abbade de Cistér e a ama sêcca dos condes de Povolide.

E mais despejada petulancia foi livelar-se elle hombro a hombro com o fidalgo gentilissimo de quem as mais augustas e bellas damas de Portugal solicitavam á competencia um sorriso, um relance dos olhos requebrados, uma phrase languida de deliciosa pachorra. Elle, Victor Hugo José Alves, a medir-se com as graças plasticas do garboso môço de quem um principe prussiano escrevera isto:... «O marquez de Loulé, com os vestidos dos grandes de Philippe II, pareceria decerto um Buckingham,{30} ou o bem-quisto de todas as rainhas galanteadoras dos tempos feudaes... Esse portuguez admiravelmente bello e verdadeiramente perigoso... tinha enlouquecido tantas cabeças femininas...»[[2]]

Como quer que parvoejasse em displantes de tal atrevimento, Victor cerrava a missiva fazendo votos por que o mais ditoso lance de sua vida fosse o instante em que elle Alves, dobrando os joelhos ás plantas do rei legitimo, pudesse exclamar: «Pae, e senhor!»