—Não, minha senhora, eu entendi que... balbuciou o môço grandemente embaraçado.

—Então que foi que entendeu?

—Que V. Ex.ª lamentava que seu pae não tivesse morrido, antes de acceitar os donativos dos seus partidarios.

—Se assim é, que importa que V. Ex.ª seja rico?

—Tenho medo de lhe responder—disse Raul, erguendo-se de golpe, e sacudindo com a mão os longos cabellos que lhe afogueavam as faces.

—Mêdo!... que poderá dizer-me que o intimide?

—Tem razão, minha senhora. Eu preciso ser franco... preciso ser mais feliz do que sou... quero abrir-lhe a minha alma... quero, emfim...

Susteve-se algum espaço; e maior seria a detença se D. Maria José o não desfitasse d'aquella penetrativa interrogação que parecia recommendar-lhe summa prudencia nas palavras que ia proferir.{96}

E proseguiu, tirando brios propriamente da necessidade que tinha de se justificar:

—Se eu ainda lhe não disse que a adoro, é porque, na sua presença, todas as minhas resoluções fraqueam. Sou ainda novo; mas conheço o mundo. As almas infelizes envelhecem cedo. Eu não amei nunca; mas sei as palavras com que se pintam as grandes paixoens. Depois de aqui vir repetidas vezes, disposto a dizer-lhe que a amo, e não o fiz, deliberei escrever-lhe. A mesma timidez me acanhava em lhe entregar a carta. Cheguei a ter pejo de mim proprio; porque vi o desassombro com que certos homens, sem lhe faltarem ao respeito, ousavam dizer-lhe palavras que me feriam o coração e o amor proprio, ao mesmo tempo. Restava-me, ao menos, em meio de minhas amarguras uma consolação: e era que, dado que V. Ex.ª me não visse a alma atravéz do silencio, me não julgaria um frivolo namorador, sempre a ponto em dizer palavras banaes. E ainda outra consolação mais me lisongeava: era ver que V. Ex.ª, se me desprezava, ou me não via, não prestava maior attenção ás pessoas que a cortejavam, sabendo eu que o proposito de algumas era tão honesto quanto eu quizera que minhas irmans, se as eu tivesse, o merecessem.{97}