Raul, subtilisado pela paixão que adelgaça os temperamentos mais espêssos, adivinhou um dia que o sorriso da luveira em resposta aos desabrimentos de certa mulher que lhe regeitava umas luvas esgarçadas ao vestir, era a expressão ironica do infortunio que se irritava, ou acaso a serena alegria da voluntaria martyr.
Desatou-se-lhe então da alma ao concentrado môço um dizer que o engrandeceu no conceito de D. Maria:{94}
—Quantos sorrisos d'esses terá tido o snr. D. Miguel de Bragança!...
A senhora fitou-o com os olhos já nubelosos de lagrimas, e respondeu:
—Não ha comparação, snr. Baldaque. O snr. D. Miguel não póde sorrir. O que póde haver egual entre o principe e a luveira é o chorar... Mas que differença no travôr das lagrimas! Eu choro por elle, e elle... chora por si mesmo. Eu vejo a tortura, e compadeço-me: elle é o torturado. E essa mesma piedade que lá chega em escassos beneficios deve ser-lhe fél coado ás feridas do pundonor... Ha infelizes que se estorcem em sêdes abrasadoras; os amigos querem apagar-lh'as, e dão-lhes veneno... Não sei se para esses, que tudo perderam, a mais relevante caridade seria deixal-os morrer...
Não seria facil a Raul atar as idéas descozidas e interceptadas por silencios; mas o que elle percebeu animou-o a proferir uma expansiva bondade que soou asperamente nos ouvidos da luveira:
—Se eu não fosse rico, as suas palavras, minha senhora, seriam tambem para mim uma tortura...
—Não me comprehendeu—murmurou ella, abaixando o rosto sobre o engenho das luvas.{95}
—Creio que entendi;—replicou Baldaque—mas, se a magoei, perdôe-me...
—Que entendeu?—disse ella, sem levantar os olhos.—Que eu lhe pedia uma esmola para o snr. D. Miguel?