A conversão do dinheiro em beneficio da causa de D. Miguel era incentivo a maior para que elle, mais ao diante, na liquidação de suas contas com D. Maria José de Portugal, descontasse a verba empalmada, incendrando-lhe em ternuras o mais fino ouro do seu amor.

Entretanto, o causidico da legitimidade ganhava entre os seus confrades o nivel dos mais esperançosos talentos da restauração. Ensejo de fallar melodramaticamente não perdia um. Ageitava a occasião de exhibir troços de discursos que compunha no seu escriptorio, declamando-os á tia Euphemia, que se mostrava accessivel ás descargas electricas da metaphora, resultado da sua diuturna familiaridade com um auctor dramatico, que a denominava a sua Laforêt, e a beijava com{90} delirio, se ella lhe cantava, com as mãos no peito bambo, as chacaras dos seus dramas. Com os olhos suados de saudoso liquido, D. Euphemia, attenta ás oraçoens do sobrinho, cuidava estar ouvindo o dramaturgo, que se fôra d'este mundo com os ouvidos ainda atroados das ovaçoens do Salitre, e o coração alanceado de invejas roazes aos Dous Renegados do snr. Mendes Leal.{91}

[VIII
RAUL]

No rosto do anjo que desdem tão nobre!

DANTE, Inf., c. IX.

Relataram-se os casos anteriores ao realisado designio de fazer-se luveira D. Maria José.

Já, ao começo d'esta historia, José Parada, o meu introductor á presença da filha de D. Miguel, nos referiu, mais ou menos hyperbolicamente, a concorrencia de preitos á volta da galante dama. Não foi, certo, encarecido louvaminheiro quando nos relatou as esquivanças da luveira ás propostas de casamento, já com velhos endinheirados, já com rapazes de genio, e até com um rico e elegante môço que podia aspirar ao mais selecto consorcio na melhor sociedade da côrte. Tal era aquelle Raul, filho unico do conde de Baldaque, millionario{92} que entrára em Lisboa com o seu socio e amigo Manoel Pinto da Fonseca, o homem de ouro que as mulheres de carne cognominaram o conde de Monte-Christo.

D. Maria José não estremára o filho do conde entre os frequentadores da sua loja, senão pela timidez tartamuda, e rara infelicidade no acovardar as phrases, tão avêssas da galhardia dos meneios e tom de peralvilho que lhe dava a luneta, e de uma certa dextridade a que devia nos saloens o renome de bom conversador.

Nas suas praticas com a luveira da Rua Nova da Palma mediavam intercadencias de silencio que tanto podia significar amor que absorve a palavra na contemplação, como cansaço de duas almas em spasmos de tedio reciproco.

Raul, porém, amava n'aquelle extremo em que a mulher impõe respeitosa adoração, independente do prestigio do nascimento. Póde ser que elle, desconhecendo a origem real da luveira, se houvesse em presença d'ella com menos resguardos, sem todavia lhe querer menos; mas, em leal verdade, o dizer-se que a gentil menina era filha de um rei, e o porte soberano com que ella, sem arte e genialmente, justificava sua fidalga condição, eram realços á já de si peregrina belleza, os quaes,{93} a meu vêr, insinuaram ao animo enthusiasta do môço brazileiro a idolatria genuflexa que se confunde com a superstição.

Raul de Baldaque, saltando do dog-cart á porta de D. Maria de Portugal, e atirando as guias ao jockei, ia encontrar a luveira pregando botoens em luvas. A gentil senhora correspondia-lhe graciosamente ao cumprimento, passava-lhe uma cadeira, que elle recebia com ademanes de extremada cortezia; e, cumprido o dever de urbanidade como se o exercitasse nas salas opulentas de sua mãe, continuava o seu negocio, tratando os freguezes com semblante prasenteiro e um sorrir de paciencia que ninguem, entendido em dôres recalcadas no fundo da alma, poderia vêr sem pena.