A limpeza da sua pessoa, longos annos suja, não se fez rapida nem superficialmente. O talento, que o infuriava hydróphobo contra os banhos do doutor Nilo, impunha-lhe agora a necessidade de, todas as manhans, se retoiçar voluptuariamente n'um banho aromatisado com Lait d'amande douce, friccionando-se com saboens de Thridace e da la reine des abeilles, ou Crème froid mousseuse. Depois, no amanho dos espessos e oleentos cabellos, que em outro tempo fariam recuar um javali assanhado, enfileirava os cosmeticos numerados desde o{86} Baume des violettes d'Italie e crèmes duchesses até á Eau redivive de Nangavaki e á Diamantine lustrale. N'esta operação capillar, em frente d'um espelho de Veneza ladeado de columnas com arandelas de bronze, formadas por Leda com o cysne e Europa com o boi, ia Victor Hugo ensaiando as prégas da fronte e os vincos do sobrôlho, significativos de cerebro causticado pela cantharida do genio: ensaio previo que elle imaginava contribuir assás para os triumphos oratorios do snr. Sá Vargas.
Involto em robe de chambre azul-ferrete de brocatel, cingido á cinta por cordoens de sêda e borlas escarlates, Victor encaracolava as favoritas do bigode, encerando-o e lustrando-o com Pommade hongroisse; depois ungia a epiderme com crème Pompadour, e operava o quarto lavatorio da untuosa cara com agua saturada de rosée des abeilles. Finalmente, seguia-se o polimento das unhas escovadas e alfanadas com poudre oriental. Todo o requinte n'este ponto lhe parecia baldo, figurando-se-lhe que as suas mãos não accusavam na delgadeza e transparencia a aristocracia dos Marialvas ou Vimiosos.
Feito isto, alli se quedava largo espaço narcizando-se diante do vidro com o languor mulheril de um Bathylo ou Juvencio. Requebrava{87} o colo em dengosas flexuras de cysne preto, e entre-abria sorrisos de donzel, deixando apenas descerrar os labios. Risos francos e abertos não os confiava sequer do espelho. Eram-lhe dôr, desaire e violencia enormes não poder rir.
E porque não ria este homem tão alvoroçado de alegrias intimas? Seria para simular profundeza de juizo, e cuidados de conspirador que lhe traziam os miolos amartellados? Não, senhores. É que tinha os dentes lurados de cavernas cariadas e chumbadas, e as gengives tábidas d'um gluten verdoengo. Era uma podridão de caveira, um arcaboiço de mandibulas a vaporar febres perniciosas.
Tirante os dentes, o alinho complexo do poeta, visto a vulto, recendia a olorosa elegancia que lhe perfumava o ambiente, mitigando-lhe o halito paludoso, e temperando sadiamente o ar a favor dos circumvisinhos.
Não assevero que Victor Hugo ensaiasse com alguma felicidade, nos saloens da aristocracia herdada, a influencia anachreontica dos seus dotes physicos; antes pendo a suspeitar que lá se sentisse mais a corrupção dos seus dentes que a da sua alma.
As finas bellezas das raças historicas olhavam-no de soslaio, e trocavam entre si tregeitos indicativos de espanto e mofa. O inculcado{88} talento do poeta não obteria sequer, na sociedade frivola das damas illustres, aquella attenção convencional e contrafeita que a sociedade burgueza dispensa aos litteratos, sob condição de que o poeta escreva o soneto em dia de annos, ou a necrologia nos obitos da familia.
Rosnava-se, porém, que uma marqueza, já bem esfolinhada de teias de aranha de preconceitos em 1820, não o fizera esperar, como Ninon a um certo abbade, o anniversario natalicio dos seus annos ultra-canonicos, para o convencer de que a lira do bardo hodierno podia, sem profanar o culto antigo, desferir endeixas accommodadas á magestade de uma cathedral gothica. Outro sim constava que o filho do Alves dos couros, morto em odor de caceteiro cabralista, cultivára aquelles amores como quem escarda, no estylo do seculo XVI, archaismos para os lardear, com presumpção de entendido, nas modernas formulas litterarias.
Queriam dizer, ou dizia elle que a marqueza, reliquia das antigas usanças de palacio, collectora de anecdotas attinentes ao viver intimo da fidalguia, e refinadamente polida de maneiras exclusivas da sua casta, pagava generosa as fumigações do nardo, dando ao seu poeta uma demão de verniz de bom-tom,{89} que elle decerto não dispensaria para escodear as crustas da educação, na convivencia do capitão da carta e nas cêas de figado frito na tasca da Rua das Pretas com os clowns do Price.
Como quer que fosse, n'estes amores transitorios e meramente acceites como appendice de policiamento, Victor Hugo José Alves guardava intemerata e sem nodoa a poesia do seu peito. D. Maria não se lhe despintava da idéa apaixonada.