Entretanto, a conversão de tres contos de reis em objectos attinentes á reformação physica e moral do poeta, seria acto digno de moderados elogios, se o sujeito não precedesse de calculos e consideraçoens politicamente transcendentes a consubstanciação do metal com a sua pessoa. Dotado de vistas perfurantes nas nuvens pardas do futuro, Victor Hugo, estribando-se nos correligionarios, e mais ainda na efficacia dos seus proprios artigos e instinctos amotinadores, previu que o principe proscripto seria cêdo ou tarde redintegrado no throno. Não era base menos fundamental de seus propheticos raciocinios a depravação das doutrinas liberaes, desde que a classe media corrompida gafára de sua lepra a gentalha, de quem se divorciou, pensando que o irmanar-se com fidalgos desbragados{81} era desencanalhar-se da ralé onde havia nascido.

O severo snr. Alexandre Herculano, no prologo Da Origem e estabelecimento da Inquisição, tinha escripto umas phrases biliosas de que Victor Alves inferiu a provavel restauração do rei legitimo. O vidente historiador, no conceito do cavalleiro da Ala, não podia illudir-se, quando vaticinava a restituição do absolutismo pelos proprios esforços da burguezia, sua triumphante inimiga, a qual, já temerosa das sanhas da plebe desafrontada do cabrêsto religioso, se colligaria com reaccionarios para repor rei absoluto que lhe caucionasse os haveres, cortando com a espada dos dragoens de Chaves as cubiças dos proletarios.

Prenhe d'estes grandes palpites sociologicos, Victor impoz-se o dever civico de jurar bandeiras na vanguarda do trôço mais aguerrido, metter a cabeça aventureira á brecha mais bombardeada, e lampejar claroens onde a noite dos espiritos fosse mais caliginosa—claroens de eloquencia nos clubs, nos botequins, e até nas salas das Aspazias vetustas, que, desde 1834, anafavam as barbas de todos os Pericles—como elles vingam n'este paiz—mais ou menos similhantes em esthetica e plastica ao chorado Elias de D. Rozenda.

Á mais vivida luz do entendimento se mostra{82} que Victor Hugo não conseguiria relacionar-se na sociedade, onde lhe cumpria fecundar com o verbo as convicçoens legitimistas, se não se entrajasse com o asseio e galanice que hoje em dia realçam as clausulas do bom orador. Decerto lhe seria atravancado o accesso aos saloens, se na sua guarda-roupa tivesse sómente a quinzena de panno pilôto com que mediocremente se distinguia nas cêas do Collete-Encarnado; e com a qual se escondia na penumbra de um «caffé» da rua de S. Roque, aquecendo a grogs fiados a fantasia. Tempos calamitosos eram esses em que o deputado Elias o brindava com um paletó no fio, e um collete de mozaico desbotado, relançando á mãe um olhar que requeria gratidão, fidelidade, e talvez a renuncia completa ás caricias do conego Antunes!

Victor Hugo tinha presenciado das galerias da camara baixa que os homens, em cuja testa latejava a inspiração estuosa dos Izocrates e Hortencios, primavam na casquilhice do trajo, no adamado da penteadura lustrosa, no azeviche brunido dos bigodes. Viu que o involtorio engrandecia mais que muito as posturas sculpturaes e antigas da gesticulação, bem que a clamyde grega ondularia mais imponente nas omoplatas do snr. José de Moraes, do que em verdade as abas do fraque um tanto{83} canhestras para as attitudes largas e arrojadas. Reparou em particular o embellesado Victor Hugo José Alves no aprumo estatuario do snr. Carlos Bento; e, com quanto o fino gosto dos Phidias inéditos estivesse cubiçando uma toga cahida com romana magestade sobre aquella confirmação de myologia classica, o bem posto da pessoa entre as costuras da vestimenta não prejudicava de todo os raptos de eloquencia que lhe phosphoreciam no aspeito grávido de idéas. Ia n'estes effeitos, desconhecidos a Longino, o segredo da arte de vestir bem.

Não lhe fez menor impressão o snr. Arrobas, que sorria de esconso para o collete listrado do já hoje defuntissimo snr. João Elias; nem pôde esquivar-se a imaginar que o snr. Mártens Ferrão, sem o primor das suas casacas, e o compassado pendulo do braço direito á competencia com o pendulo compassado do braço esquerdo, apenas vingaria com os seus discursos retirar das pharmacias o láudanum, e constituir a camara em permanente jardim das Oliveiras, onde os discipulos de Jesus dormiam de tristesa, como S. João refere. Dormir de tristeza!—é o mais curial e justificado somno que pode narcotisar uma assemblêa de legisladores, quando a providencia das naçoens não encarrega alguns deputados bem penteados e vestidos de manterem o{84} auditorio em alegres insomnias, salvante o snr. duque de Loulé para quem o proprio snr. padre Antonio Ayres do Porto seria uma amendoada.

Destas contemplaçoens sahiu o filho de D. Rozenda Picôa bastante inquieto sobre a proveniencia dos recursos precisos a quem por força, privado d'elles, havia de abdicar dos destinos apontados fatidicamente pelo genio.

Se elle enviasse ao snr. D. Miguel de Bragança os tres contos de reis, e assim se exonerasse de ser o motor da restauração, á mingua de fato digno d'um restaurador, não seria isto damnificar o paiz, a trôco de ser honrado com um homem? Que montaria mais ao proscripto—o ouro da filha, ou a restituição da corôa? E, se alguns punhados de ouro, em mãos alheias, lhe estavam logrando juros de patria e corôa, não era obra para tres vezes bemdita aquella santa ladroagem que habilitava o revolucionario a acercar-se, depois, do solio do rei restituido, com a ufania de outros bandoleiros que elle via assentados á orla do solio usurpado?

Tres contos de reis nas algibeiras de Victor Hugo, estavam germinando casos e transformaçoens de magnitude incalculavel, ao passo que, enviados a Heubach, seriam ingloriamente{85} consummidos em comestiveis e outras ridiculezas de todo ponto inuteis á reivindicação da lei fundamental de Lamego.

Ao proposito da legislação patria, derogada pelo direito da força, muniu-se Victor Hugo de copiosa livraria; mas tanta era a confiança que pozera na espontaneidade original dos seus syllogismos, que lia quasi nada, contentando-se com o substractum extrahido dos escriptos do padre José Agostinho de Macedo e fr. Fortunato de S. Boaventura. Um livro que elle preferia ao Punhal dos Corcundas era Les talismans de lá biauté, obra até certo ponto estranha ás estudiosas vigilias d'um conspirador; mas conducente aos seus intuitos de coadjuvar a beldade dos actos do espirito com a compostura esmerada do corpo.