No regaço d'aquella dama alguns portugueses, ajoelhados, não á rainha, mas ao anjo, depunham o producto das esmolas colhidas em Portugal.
O Senhor D. Pedro V apreciára a virtude dos que, sem esperança de galardão, mantinham no exilio a mediania do infante. Quiz,{78} pois, egualar-se no sentimento da caridade aos que se devotavam ao homem esbulhado de todas as grandezas, e até privado da gloria posthuma com que a historia fartas vezes honra a lapide dos que resvalaram do throno ao sepulcro pela rampa do exilio.
E, depois, o magnanimo monarcha, arrobado no resplendor de uma estrella que lhe levára para Deus a luz ephemera dos seus jubilos, alou-se no raio celestial, e gosou-se de lá na contemplação das mais sinceras lagrimas que ainda alguma nação chorou sobre a mortalha do seu principe.
E então somente em um secreto livrinho de lances, que o rei deixára escriptos de sua vida intima, se encontrou a verba mensal de trezentos mil reis votada a D. Miguel de Bragança.
Ora haveis de saber que o irmão do snr. D. Pedro IV nunca recebeu a mezada do rei de Portugal, nem os tres contos de reis de D. Maria José.
Posto isto, leitor attento e sobre tudo philosopho, diga-me V. Ex.ª, se dado o exemplo da fraude em tão altas regioens, é muito de espantar que Victor Hugo José Alves enriquecesse o seu sangue depauperado com a substancia metallica dos tres contos de reis que a obscura D. Maria José enviara ao pae!{79}
É d'este modo que se esclarecem as melhorias tão depressa feitas na pessoa espiritual e corporea do filho de D. Rozenda Picôa.
O procedimento d'este escriptor não seria, talvez, digno da commenda de S. Thiago da Espada, nem tambem me consta que elle a pedisse; todavia, não se me figura irreprehensivel equidade alcunhar de ladrão qualquer sujeito, porque não foi agraciado. Se não teem sido muitos os exemplos d'este descuido em Portugal, as excepçoens não devem menoscabar os creditos de Victor Hugo. Os reis não podem, sobraçando a cornucopia das mercês, espreitar todos os latibulos onde se forjam malfeitorias. Não é da attribuição dos cabos de policia enviarem a sua magestade um mappa mensal dos malandrins mais conspicuos da sua esquadra. Por via de regra, o poder executivo não leva todas as quintas feiras á munificencia regia pessoas de quem o leitor costuma acautelar o seu relogio, ou receia encontrar em ruas não patrulhadas.
Quando um ministro do reino apresentava, ha poucos annos, ao senhor D. Luiz I, que Deus guarde, o decreto que laureava com a corôa de barão de S. Diniz um proprietario de bordeis no Rio de Janeiro, seria indecoroso para o alcouceiro agraciado ajoujarem-no a um biltre ordinario. O rei sabia que tambem Catão{80} ministrava em Roma collarejas de alquilaria das quaes cobrava percentagem. Qual rei denegaria um baronato a Catão censorino?
Victor Hugo José Alves que espere. Mais tarde será regalardoado na proporção da injustiça ou da inveja que lhe atabafou os meritos. Deixe o bem estreiado cidadão germinar a semente que fiou do uberrimo torrão da sua patria. A arvore ha de bracejar vergonteas afestoadas de grinaldas que algum dia lhe hão de juncar a escarpa do capitolio.