O conde da Carreira e outros pedagogos, que trajavam ainda calção e rabicho na alma, intouriram o animo do principe com iguarias indigestas, introvertendo-lhe para o viver intimo, em florescencias sem aroma, os gomos da mocidade que nunca desabrocharam perfumes de contentamento. {74}

E, porque era triste, era bom, compadecido, esquivo a vanglorias, como quem sabia, que, nas naçoens livres e pobres, nenhumas ostentaçoens sobredouram o manto real senão as da reportada parcimonia e abstenção de soberanias extemporaneas.

Um regimen de governação, que facultasse ao rei amplas prerogativas, demonstraria que o primogenito da snr.ª D. Maria II era especulativo de mais para deliberar n'esta rasa missão de governar homens. O polyglotto snr. Viale inoculara-lhe empólas academicas, uns arrôbos já bastantemente serodios em glossas de mysterios dantescos, pelos quaes o principe, absorto entre o enigma da meia-edade e o enigma peior dos mestres, revelou predilecção impertinente.

Que farte sabia o previsto alumno dos pingues sabios que lhe não montaria ganancia alguma o estudo da sciencia de governar este manso povo, que lhe havia apedrejado o avô e rossado a injuria desbragada pela sombra da mãe impolluta. Nas angustias da snr.ª D. Maria da Gloria se lhe revelou a condição acerba de quem ha de ver homens e factos atravéz do prisma dos validos. Desde o padre Marcos até ao senhor do castello de Gualdim Paes, encadearam-se successos que mostraram ao meditativo principe o indeclinavel calix{75} em que sua mãe lhe legara—para saudades e exemplo—o travo de suas lagrimas.

Por isso aquelle moço não provára as alegrias e regalos de sua edade e jerarchia.

Ao saír do sereno ambiente do gabinete de estudo para as borrascas da vida pratica, retrahia-se aos braços da chimera luzentissima que esvoaçava ás regioens sombrias da Divina Comedia—semsaboria immortal!—ou se librava nas nevoas de Macpherson,—immortal semsaboria!

O ar do paço tresandava ás prêas que os escaravêlhos rolavam pelas alcatifas. Da camarilha das mulheres ainda vaporavam as caçoletas encontradas nas recamaras da Bemposta. Na camarilha dos homens mal podia o principe sincero extremar entre respeito e adulação, e entre silencio estupido e sisudeza discreta. Se os mestres, preleccionando-lhe o reinado de seu tio-avô, bosquejassem o caracter dos validos que o derrancaram, o rei, nas suas salas, cuidaria achar redivivos, em cada cortezão, o Vadre, o barbeiro viscondisado, e o Sedvem, mais seriamente vestidos com as librés de 1857.

Uma vez, D. Pedro V, obedecendo a impulsos de bonissima indole, ordenou que as lastimas dos queixosos de iniquidades pudessem chegar á quasi soledade onde se amiserava{76} um rei. Inaugurou-se a celebrada caixa onde os requerimentos eram lançados. A chave d'esse cofre de lagrimas, que já haviam sido acalcanhadas no peito dos repulsos, era el-rei que a tinha. Confluiram a centenares os appêllos da injustiça dos ministros para o simulacro do braço soberano; mas as reparaçoens eram baldas, porque D. Pedro V o mais que podia dar em beneficio dos queixosos era a esmola aos que lh'a mendigavam, e commiseração aos que se deploravam, pedindo justiça ao rei e não esmola ao abastado. O alvitre do imperante denotára alma egregia; mas o infortunio vingára apenas fazer-se conhecido no gabinete real. E mais nada. As virtudes do rei não podiam ser mais fecundantes que as do cidadão, primeiro na jerarchia, mas não decerto o primeiro em bens de fortuna. Era rei, consoante a pauta constitucional; e os accusados no seu tribunal fantastico eram os pennachos, as togas, os arminhos e os argentarios a quem os éphoros pediam de usurario emprestimo as mezadas da lista civil.

Os aulicos de quem o principe se rodeava, forçado pela pragmatica, nunca lhe referiram com certeza as penurias que esmaltavam as cans de D. Miguel de Bragança. Não era respeito á legitima soberania, nem temor do real desagrado que os amordaçava. Elles sabiam{77} que na alma do rei não negrejavam odios ao irmão do seu avô, nem se quer á sequéla legitimista que explorava nas franquias do codigo liberal a liberdade de injuriar o throno, vendendo a injuria impressa. Enfreava-os o receio de espertar em a liberalidade do coração dadivoso, defraudando-se dest'arte do quinhão que repartiam, pondo o almoxarife á porta das mercearias insoffridas a pedir-lhes que não denegassem ao refeitorio do rei de Portugal as massas e os paios fiados com desconfiança.

Não obstante, D. Pedro V soube que D. Miguel, levado pela providencia applacada aos braços da espôsa, que lhe tapetava de flores tardias o breve caminho da sepultura, e o rodeava de alegres berços, povoados de ridentissimas creanças—uma senhora, no mais vicejante dos annos, e no esplendor da belleza, immaculada, neta de reis—espectaculo que dulcifica lagrimas!—offerecia o seio para reclinatorio de um velho expatriado e pobre!