—Desconfiar?...
—Sim, desconfiar que V. Ex.ª, em sua hesitação, me dá a perceber a difficuldade de combinar o respeito, que me tem, com a explicação que me ia dar da sua riqueza. Se assim é, agradeço-lhe mais o silencio que a explicação... Deixemos no escuro o seu segredo e esqueçamos o que houve de mais nas suas revelaçoens. Entretanto, snr. Baldaque, não lhe direi que vou ser com V. Ex.ª mais sincera do que fui com outras pessoas de quem me não aggravo nem me orgulho. Com essas pessoas a minha evasiva foi o silencio, sem desdem nem menos preço. Com V. Ex.ª não será assim. Serei verdadeira, porque vou responder ao que me disse e talvez até ao que formou tenção de me dizer. No dia em que abri esta loja de luvas, estabeleci com a sociedade as unicas relaçoens compativeis com{100} este modo de vida. Não escolhi esta posição, calculando outra melhor. Não pensei puerilmente em prender admiraçoens de espiritos extraordinarios que folgam de matizar os actos vulgares da vida com o ouropel da poesia. Esta loja, com uma pobre mulher que tira d'aqui o seu parco sustento, não é romance, é occupação ajustada ás minhas faculdades e aos meus recursos. Eu poderia optar por encargo mais senhoril e lucrativo; poderia ensinar nos collegios as linguas que estudei, e algumas prendas que vou deixando esquecer como inuteis; poderia; mas o contacto com a sociedade assustava-me; a convivencia de mestra com as discipulas privar-me-hia dos confortos da alma que esperava achar e achei neste viver obscuro: é a soledade, o estar sósinha o maior numero das minhas horas, o desprendimento de cuidados que me forçariam a sahir de mim mesma, se eu quizesse dar boa conta do meu prestimo salariado á educação de meninas. Sei que me desempenharia mal por não poder, com este espirito que tenho egoista de sua tristeza, prestar attenção aos sagrados deveres de quem educa...
—Mas V. Ex.ª...—interrompeu Baldaque.—Perdão!... receio ser indiscreto, fazendo-lhe uma pergunta...
—Queira dizer.{101}
—Se ouso perguntar, é porque muita gente diz que V. Ex.ª herdou...
—Esta casa e nove contos de reis em inscripçoens.
—Nove contos de reis em inscripçoens...—volveu receioso o filho do millionario—não bastam para quem tiver aspiraçoens menos modestas que V. Ex.ª; mas... o rendimento d'elles, creio eu, dispensariam a snr.ª D. Maria José de dirigir este negocio tão pouco lucrativo; e, se me concede dizer mais, bem podéra V. Ex.ª, afastando-se inteiramente da sociedade, gosar as suas horas todas de solidão, poupando-se ás lagrimas que ha pouco vi explicarem o seu sorriso... Peço outra vez perdão, se me excedi nestas observaçoens á sua vida intima.
—As observaçoens são justas—respondeu tranquillamente D. Maria—mas eu não tenho hoje de meu senão esta casa e o valor dos objectos desta loja. A indagação de V. Ex.ª deve satisfazer-se com saber isto, e nada mais. Se mais alguem o sabe, não ha razão para que eu esconda a minha pobreza d'uma pessoa já convencida de que eu desejo ser pobre.
—Ó minha senhora!... nem mais palavra hei de proferir a tal respeito...
—A minha pobreza é voluntaria, reflectida e aprazivel—continuou a filha de D. Miguel.{102} Quem tiver pena de mim, usurpa a sua commiseração a quem a merece e necessita... Ha pouco me disse V. Ex.ª que eu não dei valor ás generosas propostas de cavalheiros abastados que me pretendiam com honrosos intentos. Não dei valor á opulencia que me offereciam; mas ao sentimento que os moveu a favorecer-me sou muito grata. Eu desejava que para cada mulher mal-afortunada sorrisse a ventura dos casamentos ricos. Deve ser muito cubiçada similhante felicidade, porque tenho visto o espanto, e talvez o despeito, no rosto das pessoas cuja riqueza eu me dispensei de apreciar. E a mim, ao mesmo tempo, parecia-me indiscrição e mediania de polidez vir aqui alguem obrigar-me a ser indelicada para evitar exposiçoens de affectos, que só então me faziam pensar na inconveniencia de ser luveira.