Dona Maria sorriu, passou a mão alvissima pela fronte, deteve n'ella a cabeça como quem revoca idéas fugitivas, e proseguiu:

—Snr. Baldaque, cheguei ao fim do que deve saber de mim propria. Escolhi esta posição. Se sahisse d'ella, attrahida por bens de fortuna, a minha alma teria pejo de sua baixa indole. Ha sacrificios que tem glorificaçoens intimas e ineffaveis. São dôres que os pacientes não querem consoladas; são as rozetas{103} dos cilicios que as creaturas delirantes de amor divino apertam mais, quando é maior a angustia. Ha penitencias moraes muito parecidas com as voluntarias macerações das santas. Nem a penitente acceitaria os supremos regalos deste mundo a trôco das suas disciplinas, nem eu trocaria a minha independencia, nesta solitaria e obscura distancia de theatros e bailes, pelo brilho que meus olhos cançados de chorar não supportariam.

—Comprehendi, minha senhora... disse Raul, revelando a magua no tremor da voz.—A palavra coração nem uma só vez appareceu entre as phrases glaciaes com que me repelle. Ha poesia sublime e santa no mysterio que lhe nortêa a existencia; mas, nas suas estrellas, no céo das suas visoens, estrella de amor não brilha nenhuma... Como havia de V. Ex.ª comprehender-me, se eu, articulando em soluços as minhas confissoens, seria como o infeliz que exhora uma divindade de marmore, e não a alma apaixonada que pretende communicar o seu ardor a outra alma?... As minhas confidencias não poderiam ser ouvidas no alto ponto d'um sentimento incomprehensivel em que V. Ex.ª me esconde as suas phantasias. Eu sabia que tinha posto os olhos da face e os da alma na mulher virtuosa; mas tambem cuidava que as excellencias{104} do espirito não matam de esterilidade as flores, do coração. Na sua edade, snr.ª D. Maria José, ha almas devastadas, que, desde o baixo positivismo do descrer, vingaram, por effeito da fé ou da graça divina, desferir nas azas da piedade altos vôos até pousarem no seio de Deus; essas, porém, sei eu que lá mesmo do céo devem chorar sobre as illusoens perdidas da terra. Sei que ha almas assim cahidas e resgatadas; mas sobre as cinzas de minha mãe irei jurar que na pureza do rosto, na serenidade do olhar, na virtuosa altivez de suas palavras, minha senhora, lhe transluz a vida inteira, sem nodoa, sem laivo escuro que ahi deixasse o anjo maldito do desengano. Nenhuma esperança lhe foi mentida, nenhum desejo lhe foi malogrado. V. Ex.ª não desejou nem esperou as felicidades que espera e deseja a mulher na flor dos annos. Se alguma hora sentiu estremecimentos de amor, soffreou-os com a violencia da sua justa vaidade...

—Vaidade!—interrompeu D. Maria—Vaidade!

—A palavra não é esta;—insistiu Raul com firmeza—ha outra mais bem cabida, mais senhoril; mas tambem menos desculpavel em nossos dias de luz, de expansão e de guerra victoriosa aos preconceitos...{105}

—Diga a palavra... Não se constranja...

—Orgulho do seu nascimento—obedeceu elle receioso.

—Louvo-lhe o coragem, snr. Baldaque. Se disfarçasse a idéa, não conseguiria enganar-me. Agradeço-lhe a franqueza. Tenho orgulho, é verdade, tenho muito orgulho de ser filha do principe pobre, do principe desterrado; e, cortejada á beira do throno de meu pae, talvez o não tivesse. Tenho orgulho de me ver abatida, e tenho pezar de não haver compartido das amarguras do grande infeliz. Quando elle soffreu extremas necessidades nos primeiros annos do seu desterro, ainda eu via nas salas e guarda-roupa de minha mãe valiosas reliquias de uma opulencia que não havia sido d'elle, nem do estado, nem da casa do infantado, nem das extorsoens feitas a uma nação arruinada. Se essa opulencia subsistisse áquella hora em que fiquei orfan, eu venderia até o leito de minha mãe para o soccorrer, e ajoelharia á divina Providencia, exhorando-lhe que me deixasse ganhar o pão de cada dia, e permittisse que a miseria se abraçasse com a dignidade, e as lagrimas, se era precizo choral-as, me não sahissem impuras do coração. O meu orgulho já vê, snr. Raul, que principiou assim: principiou como começa a humildade de muita gente desafortunada. Filhas de{106} reis haverá muitas que se julgariam aviltadas pelo trabalho; e eu soccorri-me do trabalho humilde para sustentar o meu orgulho de filha d'um rei. A mulher que se dá a fidalga distincção de igualar-se á plebe, reservando para si a superioridade de agradecer com um sorriso as offensas inevitaveis nas posiçoens humildes, não se lembra que é neta de reis para ter orgulho. Mas esta palavra é aspera, é negativa da virtude, sôa rispidamente aos ouvidos da moral christan. Tambem aos meus. Se a consciencia me não dissesse que ella exprime innocentemente o conceito que de mim fórmo, pediria a V. Ex.ª que antes lhe chamasse energica hombridade, vigor de caracter, condição excentrica e singular, se quizer, mas defeito de coração seria injustiça attribuir-m'o. Orgulho de pobreza, sim; mas sem as irritaçoens do orgulho plebeu; sem a cupidez infernada na alma. Tenho uma ambição, mortificante mas inoffensiva, uma ancia, que, se é peccaminosa, as lagrimas, que ella me faz chorar, de certo me tem lavado a alma das suas impurezas. Esta ambição é um desvario de enfermo que se estorce no ardor da febre; mas é peor ainda;... que as minhas agonias não devem revelar-se, são profundas, abafo-as, escondo-as de todos; porque estou sósinha n'este mundo; e tão desgraçada{107} que não acharia allivio algum em confidencial-as... Expliquei-lhe o meu orgulho—concluiu D. Maria José, sorrindo e bebendo as lagrimas ao mesmo tempo.

E, volvidos alguns segundos, como Raul, embebecido na contemplação d'aquella mulher, em que duas formosuras pareciam deslumbrar-se, não proferisse um monosyllabo, disse ella, amaciando a aspereza da pergunta, com a brandura do tom:

—Chamou-me orgulhosa do meu nascimento, snr. Baldaque. Eu confessei que sou; e, olhe, tenho uma qualidade mais reprehensivel ainda... quer que lh'a diga?