—Outra virtude?

—Outro defeito... Sou soberba.

—Soberba!...

—Sim, disto que vê: d'aquellas luvas, d'aquellas camisas, d'estas farraparias que me rendem as preciosas galas que eu preciso para sustentar a minha soberba.

E terminou por um frouxo de riso indescriptivel, talvez um gemido convulso, um regolfo de lagrimas que se retrahiu ao coração.

N'este lance, entrava uma criadinha com duas latas, de feição de marmitas, nas quaes ia o jantar da luveira, comprado em uma taverna das portas de Santo Antão.

Raul, com olhos turvos e voz tremente,{108} apertou a mão de D. Maria José de Portugal, murmurando estas palavras de modo que a criada as não ouvisse:

—Eu não a mereço... mas hei de amal-a como um escravo, que eu tive, me quer e ama ainda hoje. E assim como o amor do escravo me faz bem á alma, póde ser que o meu amor seja na vida de V. Ex.ª um sentimento suave.

E sahiu.

José Parada, e os convivas de Raul de Baldaque e eu não duvidamos assacar ao amador da luveira os estimaveis defeitos que dão quilate superior a quem faz praça d'elles com a invulneravel petulancia da riqueza. Julguei-o mal á primeira vez que o vi galhardear-se com tregeitos e garridices incompetentes de rapaz sisudo. Além de que, na altania do seu olhar, no sobrecenho arrogante com que mediu as minhas modestas dimensoens, emfim n'aquelle hirto aprumo da sua catadura, eu, illudido pela experiencia de dezenas de exemplares de tolos que me trazem desconfiado, conjecturei que Raul hão tinha dotes que podessem inliçar o affecto da filha de D. Miguel, a não ser a sua pessoa tafulamente vestida, o urco do seu phaeton, e o alardo de uns presumptivos mil e tantos contos.