Não é isto exactamente. A luveira não o amava. Era para elle em rigor o que lhe disse que era.
Distinguia-o do acume d'onde o via em baixo, bem que no seu levantado orgulho{128} houvesse uns brios de magestoso abatimento. Era irreconciliavel o divorcio de sua fidalga pobreza com opulencias provenientes de homem que intentasse offuscal-a com esta cousa sobremaneira desprezivel chamada dois milhoens, ou—mais execravel ainda—tres milhoens!
O conde honrou a memoria de seu pae, encerrando-se por espaço de quinze dias.
Como a saudade filial lhe estivesse pedindo consolaçoens que ninguem sabia dar-lhe, o moço desafogava em cartas enviadas a D. Maria José, nas quaes se carpia como se devesse achar allivio na condolencia da mulher destinada a duplicar-lhe os perdidos affectos de pae em caricias de esposa.
D. Maria José de Portugal respondia compassivamente ás cartas, adoçando-lhe a dôr com a certeza de que lh'a conhecia, porque tambem ella havia perdido sua mãe, e gemêra na dupla orphandade de mulher e mulher pobre. As suas respostas, se alguma vez pareciam dulcificadas por sensibilidade de amiga, nunca tocavam o sentimentalismo amoroso. E, tanto era o desartificio com que naturalmente se expressava, que ninguem veria nas cartas d'ella o esforço da mulher que se disfarça, ou procura colorir com termos delicados a parcimonia de mais affectivos sentimentos. {129}
O conde não escondia o seu despeito de Damião Ravasco. Lia-lhe as cartas que escrevia e as respostas recebidas por intermedio d'elle. E o mulato, pouco dado a interpretaçoens de phrases que se afiguravam reconditas á vaidade do conde, sahia-se ás vezes com umas reflexoens alheias do bom senso que irritavam sobre modo a delicadeza do amo.
Por exemplo, uma vez, andando o conde a passeiar no seu quarto, e a dizer em vozes interrompidas por suspiros que a luveira o havia de matar ou endoudecer, Damião, tomando-lhe o passo, fallou do seguinte theor:
—Ora meu amigo, vamos a isto. Estou farto de palavriado. Obras, obras é que se quer. Seja homem, e attenda lá ao que lhe vou dizer. Se o menino quer morrer ou perder o siso, não quero eu. A mulher ha de ser sua tanto me importa a mim que seja filha do rei como do diabo! Luveira é ella, isso vou eu jural-o, porque ainda hontem lhe comprei umas luvas de camurça. Mas, se fosse filha de rei e morasse no palacio real, antes de V. Ex.ª morrer ou endoudecer, havia eu de fazer mais restolho que dez milhoens de diabos para que ella fosse sua. Se eu pudesse, muito que bem; se não pudesse, quem havia de morrer primeiro que o snr. conde era eu.{130}
—Que fazias tu, Damião?—perguntou entre grave e risonho o conde.
—Que fazia?