—Sim...
—Vamos aqui fallar serio. Sente-se o snr. conde, e, se eu disser alguma parvoice, não se enfade, que perde o tempo. Um homem é um homem, parta d'este principio, como dizia o frade que me queria ensinar logica. Um homem não é uma mulher. As mulheres vencem com choradeiras, os homens vencem com obras: percebe o que eu quero dizer na minha? Um homem sem desembaraço... é mulher. Lá que a gente morre, quando não se desengana a puxar por si, não tem duvida nenhuma. Ha muito tempo que eu andaria ás malvas, se me deixasse estar quieto a conversar com a prudencia. A prudencia é boa nas terras onde não ha marotos...
—Mas a que vem tudo isso, Damião? Bem se vê que o frade não conseguiu ensinar-te logica!... Então que queres tu que eu faça?
Damião Ravasco soltou uns froixos de riso sêcco, esfregou as mãos, deu duas palmadas nas pernas, e respondeu:
—Se o menino me dissesse: «Damião, eu quero aquella mulher, custe o que custar»—a mulher seria sua, ou eu me dava em corpo e alma ao maioral do inferno! Diga-me cá,{131} snr. conde: como foi que se arranjou no Rio aquelle negocio da franceza que estava com o chanceller? O menino contou-me que ella não o queria, e o maltratára diante de outros...
—Cala-te, que me estás irritando!—atalhou o conde.—Não admitto comparaçoens entre a franceza e D. Maria!
—Mas o menino dizia da franceza a mesma alicantina que diz d'esta—observou o mulato, maliciando o sorriso com a velhacaria d'um pratico do coração humano.—Eu fui dar com V. Ex.ª, na chacara de Petropolis, triste, pensativo, a fallar só, a dar uns ais que parecia rebentar de paixão d'alma. Perguntei-lhe que tinha. Disse-me que amava a franceza do chanceller, e que dava um tiro na cabeça, se a não pudesse tirar ao francez. Foi assim, ou não foi?
—Não me atormentes!—insistiu o conde, corrido talvez de confrontação que o mulato equiparava entre as duas situaçoens analogas.
—Mas...—tornou Ravasco.
—Já te disse que me não afflijas... Queres dizer-me que fazes á filha d'um principe o que fizeste á franceza?...