Estas e outras louvaveis reflexoens ponderavam no espirito do conde, quando, approximando-se de Ravasco, lhe abriu os braços, estreitou-o ao peito, e disse:
—Não finjas que me deixas, Damião, porque tu não deves nem podes deixar-me...
E o mulato, rindo e chorando, tartamudeava{134} palavras convulsas, em quanto o conde proseguia:
—Não se deixa um rapaz de quem se é amigo, desde o berço, e a quem se deu protecção quando elle a precisava menos que hoje. Olha que estou só no mundo, Damião. Não tenho ninguem que me estime, senão tu. Dos affectos que me rodearam na infancia e mocidade, vives tu só. Se me faltares, accuso-te de máo e ingrato, e hei de convencer-me que não ha para ti amisade duradoura senão... a dos trens—concluiu jovialmente o conde, já quando o mulato o levantára nos braços como quem afaga no colo uma creança para desamuál-a com meiguices.
D'ahi a pouco estava outra vez o conde confidenciando a Ravasco o seu fatal amor á mulher que lhe não dava mais estimação ás qualidades pessoaes do que á riqueza e ao titulo. O mulato transiu-se de assombrado quando o millionario lhe affirmou que a luveira pobre o rejeitaria, se lhe elle offerecesse a mão de esposa.
—O menino já lh'o disse?!—interrogou Damião.
—Não. Disse-m'o ella para me poupar ao dissabor da pergunta.
—Snr. conde—volveu o sceptico—olhe que ha mulheres finorias!... Olho vivo, menino!{135}
—Damião!—accudiu desabrido o conde em desforço de D. Maria.—Sinto que o teu espirito não saiba respeitar devidamente a mulher que eu escolheria para minha esposa!
—Respeito, sim, senhor. Isto é um modo de fallar. Mas não creio que haja senhora rica ou pobre que rejeite o snr. conde, que é moço, é bem parecido, sabe o que diz, e tem mais do que pensa. A mulher, que o não quizer, tem outro homem, ou é douda. Eu, no seu logar, tratava de averiguar se essa creatura é o que parece, e regula bem da cabeça.