—Paixão? sim... paixão pelo pae...

—Paixão por V. Ex.ª

D. Maria córou. Não era bem o pejo de tal revelação feita por pessoa de esphera infima. Era febre de mais fidalga enfermidade: era o decoro de princeza, fibra estremecida por nevralgia de orgulho, mas fibra que não é commum de todas as senhoras fibrinosas. É um filamento adelgaçado pelo esmeril do tempo atravéz das raças; cousa que vem das castellans do cyclo feudal; que estremeceu nas mulheres dos baroens da meia edade; que não tem vibração nenhuma nas baronezas d'esta edade recentissima. E vai depois o mulato, como eu vinho contando, foi embargado no seu plano de requerer a mão da luveira para o conde.{137}

É que dous sujeitos, vestidos ao bizarro, e bem talhados de suas pessoas, entraram á loja, e com ademanes farçolas, pediram collarinhos de bretanha.

Expoz no balcão a luveira as bocêtas dos colleirinhos.

Os freguezes, a par e passo que os iam examinando mui devagar, galanteavam a silenciosa senhora com uns dizeres desta casta:

—Mal empregados olhos em almofadas de costura! Quem os tem tão matadores melhor uso lhes daria, se se dignasse olhar para outros que a amam...

Eram negros côr da noite
Uns olhos negros que eu vi...

O sujeito que assim fallava, dava ares de deputado do norte, papa-fina, calaceiro de damas sertanejas, gallo de aldêa vezado a cacarejar finezas; mas bem creado e de fama na sua comarca, e talvez mais adiante, como pessoa perigosa para senhoras frageis ao dom da palavra.

O outro, que vislumbrava esperteza e garbo de lisboeta, sorrindo desdenhoso á linguagem do amigo um tanto rançosa das galanices do Clarimundo, fallou d'esta arte: