Cobriu-se de profunda amargura o aspeito de Damião Ravasco, ao ver que os dous freguezes de colleirinhos, depois de se escovarem reciprocamente com os lenços, e de trocarem entre si palavras mysteriosas, calcurriaram-se embora com apparencias de sãos e escorreitos.
Na sua fome de musculo e sede de sangue, o mulato, dando redia á furia, idealisára{140} o deleite de esfaquear e mastigar aquelles homens, porque pensava que elles, repostos na posição vertical, o atacariam façanhosamente.
N'este emtanto, D. Maria não dava signaes de susto, nem d'aquelle nervoso palpitar que vai tão senhorilmente ás compleiçoens feminis, quando um homem esmurraça dois na sua presença. Longe d'isso. A desaffronta dilatara-lhe o coração que o pejo retrahira. Reluzia-lhe o prazer nos olhos. O odio aos insultadores da sua honesta pobreza accendera-lhe no peito, por momentos, a ruim, mas natural paixão da vingança. O sangue de princeza, orgulhosa de raça, refluira ao coração da luveira, humilde por estudo. Sentia-se bem. Não podia nem queria fingir-se descontente do arrojo do mulato. Com a fronte alta e a commoção do prazer dos deuses olympicos na voz, disse a Damião:
—Praticou um acto de generoso valor! Se houver de soffrer por minha causa, não se arrependa de defender a mulher que só tem tido a sua dignidade e paciencia a resguardal-a de peores insultos...
Avisinhou-se então o estrupido de uma carruagem. Damião conhecia o trotar cadenciado dos seus normandos.
—É o patrão...—disse elle, correndo á rua.
E abriu a portinhola da carruagem.{141}
—Estavas cá?—perguntou o conde.—Que faz aqui este povo?
Referia-se ao ajuntamento do rapazio e mulherigo que escutavam das primeiras testemunhas do conflicto o caso dos dois homens afocinhados na rua.
—Que faz aqui esta gente?—instou o conde ao mulato que se occupava distrahidamente em alargar umas fivélas dos arreios.