—Não me peça V. Ex.ª sacrificios em que a minha dignidade seja violentada. Retirar-me de que perigos? O procurado pelos soldados de certo, não sou eu! Prouvera a Deus que o fosse... N'este momento invejo Damião; e prezo-o mais do que é costume prezar as pessoas que se invejam.

Dito isto, o conde assomou ao limiar da porta, a tempo que os soldados e os dois respeitadores da intervenção judicial defrontavam com a loja.

O conde conheceu o amigo do deputado. Era um dos seus commensaes nas ceas amostardadas{143} por dançarinas, mulheres que dissolviam o coração em champagne, e o espumavam nos labios em beijos acres de tanino. Os quaes beijos, na alma deste contubernal do liberalissimo Raul, haviam deixado contusoens menos duradoiras que os tres bofetoens do selvagem americano nas maçans pizadas da sua cara.

Acercou-se o paralta da porta da loja e perguntou:

—Ó conde, ahi dentro está um preto?

—Não.

—O scelerado fugiu! disse o deputado.

—Não fugiu—emendou o conde.—De quem havia de fugir elle? De VV. Exc.as? Dos soldados de certo não; porque seria injuriar dois cavalheiros dessa laia, suppor que VV. Ex.as, castigados ao mesmo tempo por um só homem, iam invocar a protecção de trez municipaes!

—Que ar é esse teu?—perguntou o lisboeta, estranhando o tom insolentemente ceremonioso do conde.—Que tens tu com o assassino que nos assaltou ahi na loja d'essa notabilidade protegida por sicarios de tal casta?

—Vejo que a protecção da força armada—replicou rindo o conde—lhe permitte á lingua a actividade que lhe falta nos braços!... O homem que lhe bateu, não fugiu.