Elle rugiu de indignação, e metteu na algibeira um rewolver de seis tiros, quando soube que D. Maria José de Portugal tinha sido ultrajada. Elle quem?
Victor Hugo José Alves—pois quem havia de ser?
D. Maria, n'aquella tarde da sova subministrada por Damião Ravasco, nutava indecisa se deveria fechar o estabelecimento e obstar a novo insulto, se affrontar animosamente as contingencias da sua posição.
N'esta penosa alternativa, em que de um lado preponderava a inflexivel necessidade, e{146} do outro lado o medo da zombaria, a encontrou Victor Hugo.
O ingresso precipitado, que elle fez na loja esbofando, alvorotou a dama.
—Acabo de saber—disse elle, com intercadencias de asphyxia—que dois biltres ousaram aggraval-a, minha senhora! Eu antevi sempre que V. Ex.ª, baixando á plana onde se acha, seria alvo de taes vilipendios. O sentimento de excelsa virtude, que lhe aconselhou tal passo, não podia ser entendido n'este javardeiro de Lisboa. Ha dedicaçoens santas que se não permittem ás mulheres formosas. É prohibido aos anjos avoejarem por este inferno sem crestarem as azas. Eu avisei-a, snr.ª D. Maria José. Contava com isto. Sei o que é esta sociedade. Esperava que a sua innocente alma provasse o fel do intransitivo calix que está sempre emborcado aos labios puros. Mas... não venho arguil-a... Venho saber os nomes dos bigorrilhas que a offenderam!
—Não conheço as pessoas que me offenderam, snr. Victor—respondeu D. Maria José, abafando o despeito que lhe causara o tom pretencioso da censura.
—Mas aqui—volveu o cavalleiro da Ala, arejando-se com o chapéo e chibatando a perna direita com a badine de caoutchouc—aqui{147} estava alguem que sabia os nomes dos dois birbantes!...
—Estava, sim. O conde de Baldaque sabe quem são: eu não sei.
—N'esse caso, vou procurar... sua excellencia... o snr. conde de Baldaque.