Victor Hugo pausou em cada syllaba uma accentuação ironica, deixando vêr nos dentes caninos o azedume e a podridão.
—Procural-o...—acudiu D. Maria, mais receiosa da tolice que da braveza—Procural-o!...
—Sim..., minha senhora.
—Para quê?
—Para que me diga o nome dos dois sujeitos que enxovalharam V. Ex.ª, se é que o snr. conde não reserva para si a honra de a desaggravar.
—O favor do desaggravo já o recebi de um criado do conde; entretanto, agradeço ao snr. Victor a resolução com que veio aqui.
—Mas eu, minha senhora!—replicou o filho de Rozenda, enroscando a badine, e fazendo resaltar a ponta de uma para outra mão—eu lamento profundamente que V. Ex.ª fosse desaggravada por um criado de quem quer que seja. As senhoras, nascidas em degraus inferiores da escala social, recusariam tão ordinario paladim; salvo se o conde de{148} Baldaque pode armar cavalleiros os seus criados.
D. Maria José encarou soberanamente no poeta, e disse:
—A final, que ares são esses que se está dando, snr. Victor? Depois das zombarias dos homens que não conheço, vem V. S.ª com os seus motejos? Estou em lhe dizer que os insultos dos estranhos não me ferem tanto como as ironias das pessoas que me conhecem.
—Eu não a motejo, snr.ª D. Maria—acudiu Victor Hugo, compondo a cara de visagens melodramaticas.—Queixo-me, deploro-me, appéllo do seu orgulho para o seu coração. Uns peitos recalcados dão lagrimas; outros dão sangue; e os mais infelizes são os que não podem desafogar chorando, nem succumbem ao gume da ingratidão que os sangra e retalha... Os mais dignos de lastima são os que a si mesmos se despedaçam com os gryphos do escarneo. Mas eu queixo-me, senhora, sem accusar. Accusar a filha d'um principe não ousa o vérme, o plebeu, a fronte onde a mão de Deus pode ser que esculpisse a palavra GENIO...